Diálogos: de Sol Bentto, do Coletivo Ambulante, para o Coletivo Cartográfico

Segue, abaixo, um texto de Sol Bentto, integrante do Coletivo Ambulante – http://coletivoambulante.blogspot.com.br/ – sobre a apresentação da performance/espetáculo Instruções para o Colapso, realizada em São Bernardo do Campo, durante a circulação apoiada pelo ProAC Primeiras Obras de Dança 2012, em parceria com o CLAC (Centro Livre de Artes Cênicas):

Em observância… Instruções para o Colapso… do Coletivo Cartográfico…

Dia quente muito quente em São Bernardo do Campo, dia 14. Três mulheres adentraram a praça, corpos lentos, buscando a errância e o desconforto da cidade, corpo frágeis. Numa cidade provinciana como São Bernardo, no centro da cidade, na praça da Matriz algumas pessoas paravam para observá-las, olhares estranhos, curiosos – ali as estrangeiras e seus corpos em potência, em latência, buscando um estado gerativo.

Subiram as escadas da igreja, depois, derreteram-se, uma a uma – água, fluxo. De repente – um grito! Há um lapso descontrolado descontrolando o meu corpo que as observava atentamente.

Então, olhares. Cria-se um jogo. Corpos que se tocam num total frenesi, força, risco, embate e dor. Dói ver! Dói em mim!

Corpos no chão, corpos ao chão, desmembramento. Sou conduzida pelas artistas, a adentrar em mim e, então, não sou mais eu, sou elas, sou os outros observantes, passantes, transeuntes, pipoqueiros, senhoras e senhores, crianças, mãe e o sorvete a derreter no calor insuportável.

Uma nova paisagem se configura no espaço, funde-se com elas, e para elas – presente para nós. Corpos extra-cotidianos, instiga/dores, investiga/dores. E assim, não éramos mais os mesmos, nem elas, nem eu.

Corpos frágeis? Sim! Corpos fortes!

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Sobre Trabalhos: Instruções para o Colapso em São Bernardo

Depois de um curto trajeto de carro, chegamos em São Bernardo do Campo. ABC. Pelo trajeto, mal se percebe que se saiu de São Paulo. Mas estávamos definitivamente outro lugar. Éramos estrangeiras como o fomos em terras mais distantes.

Conseguimos guardar nossos materiais, surpreendentemente, dentro da torre da Igreja Matriz. Em uma paróquia em que nomes santos dominavam. Marias, José e Antônio. O colapso aguardou por debaixo dos sinos…

Diferente do que nos era de costume nas outras cidades que fomos, esse dia não passamos a manhã envolvidas na remontagem do trabalho no novo espaço. Essa discussão precisou se anteceder, pois, nessa manhã, nós demos a Oficina Construir e Demolir o Corpo Cidade para um grupo incrivelmente potente e interessante de artistas – muitos que já desenvolvem uma pesquisa de rua – e estudantes de dança e teatro, em sua maioria alunos do CLAC (Centro Livre de Artes Cênicas).

A oficina se deu na EMAEI (Escola Municipal de Arte Educação Integrada) Paulo Bugni, que antes de escola de artes fora uma pequenina igreja. Suas formas evidenciavam seu passado… e nós, com nossas propostas de demolição, evidenciávamos as mudanças e sobreposições do tempo, também naquele espaço.

Num curto espaço de tempo, condensado, de uma manhã, trafegamos com os participantes da oficina por alguns elementos de pesquisa muito caros para nós – um corpo entre a ruína e o canteiro de obras, o corpo individual e o corpo coletivo (escuta e criação de imagens), o simples risco de estar na rua, o programa para desprogramar…

Os levamos para rua, em deriva, em permissão para os atravessamentos do asfalto. Foi muito bonito poder ver algo de nosso trabalho em reverberação em outros corpos, uma multiplicação – de repente a pesquisa pode migrar de nós três  para rebater em um número bem maior de pessoas, que ocuparam a rua num corpo amplo e comum. Ao final, na conversa, reafirmou-se nossa sensação de uma proliferação de grupos e artistas com a necessidade de saltar para fora dos espaços tradicionais das artes e de pensar e criar novos modos de produção… Ficou o desejo de seguir em diálogo, aprofundando pesquisas e pensamentos em parceria.

Depois de um período curto de preparo, seguimos para a praça central, praça da Igreja Matriz, para dançar o trabalho.

Praça que descobrimos possuir uma história forte para os habitantes de São Bernardo. Uma história de demolições e construções. Uma história de soterramento de histórias. A praça, antes arborizada e com um parque infantil, fora destruída e substituída por uma praça angulosa, de escadarias, corrimãos, concreto e vazios. Segundo nos disseram, ela era antes super utilizada e agora estava abandonada – sua re-construção havia impossibilitado que ela fosse de fato apropriado pelas pessoas. Percebemos, então, que fomos tratar de demolições em um terreno cuja demolição recente tinha a face de uma cicatriz.

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Começamos. Era um dia quente. O chão fervia. O chão era sujo. O chão era áspero. Em nossos primeiros escorrimentos pelo solo, sentimos imediatamente suas marcas no corpo. A praça, aberta e cheia de diferentes alturas, diferentes ladeiras, permitia que as pessoas nos vissem por diferentes ângulos, na maior parte das vezes a distância… amparadas pelas sombras das árvores que só existiam nas margens da praça, nos viam em plano aberto, a tecer demolições pelos canteiros vazios.

Era um público muito diverso. Olhar para as pessoas transitava os sentidos do trabalho numa multiplicidade de difícil captura. Haviam os olhares atentos dos participantes da oficina e de outros artistas que nos foram ver. Haviam olhares apressados de quem havia tirado o sábado para as compras. Haviam olhares temerosos e provincianos. Haviam olhares curiosos. Havia uma mãe que via em nosso ato de nos expor em praça pública um ato de extrema liberdade e parecia repetir isso inúmeras vezes para seu filho. Foi um híbrido de sensações e paisagens constantemente diversas.

Ao final, conversando com algumas pessoas, elas nos contam o quanto é novo um trabalho como esse adentrar o espaço público de São Bernardo. Elas estavam contentes de constatar que, por causa do CLAC, esses trabalhos começam a aparecer e pedir espaço pela cidade. De fato, São Bernardo entrou em nossa rota por um convite direto do CLAC, que buscou o contato de diferentes artistas a partir das listas de aprovados no ProAC. Fica aqui o nosso agradecimento por esse chamado, o desejo de que mais parcerias se concretizem em breve, e a sensação concreta do quanto esse Centro Livre de Artes Cênicas anda a transformar e potencializar sua própria cidade.

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Fotos: Fernando Siviero