Diálogos: Desenhos de Ricardo Woo

Desenhos de Ricardo Woo, feitos durante a apresentação de Instruções para o Colapso no dia 15 de setembro de 2013, em Santo André, ultima cidade da circulação feita com o apoio do ProAC Primeiras Obras de Dança 2012.

Um presente. Uma Surpresa. Obrigada Ricardo.

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Sobre Trabalhos: Instruções para o Colapso em Santo André

Aos domingos, na Praça do Carmo de Santo André, o comércio não abre. O movimento, que preenche as vagas de carros, é o da Igreja.

Era silencioso e calmo. Chegamos em nosso passo lento. Uma senhora se aproxima. Pergunta se haverá dança, veio para isso, havia visto no guia. Ela, descobrimos depois, havia trabalhado com o Teatro do Oprimido de Boal. Um homem com uma prancheta cheia de papéis e um carvão nos procura com o olhar e deixa sua mão riscar traços no papel, nos desenha. Ele, descobrimos depois, era Ricardo Woo.

Ao contrário do que constava no hiper-produzido site da Igreja, no horário que escolhemos para apresentar o trabalho, havia missa. Chegamos entre o som da missa e, justamente, nos sentamos nos degraus da escadaria. Era possível ver os homens em suas túnicas de culto. Era possível ouvir os cantos. E nós, com nosso som ruidoso, escorríamos suas escadas.

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Um homem sai para fora da Igreja e nos observa, olhar rígido e reprovador. Na frente da Igreja, um posto policial e um carro. Os policiais também nos observam.

Um menino pequeno, de cerca de quatro ou cinco anos, sai para fora da porta da Igreja enquanto explodimos, ele nos olha em espanto, pula e ensaia uma dança de explosões, que dura pouco, pois sua mãe rapidamente o reprime e o re-encaminha para dentro do templo.

Outros homens nos seguiam. Um nos olhava pela sacada.

Chegamos à Concha Acústica da praça para nossos momentos finais. Concha acústica que, soubemos, que seria soterrada por causa de um pedido do padre, que fora impedido por conta de um abaixo-assinado da comunidade. Nela, estava um grupo de adolescentes punks. Eles olhavam entre a curiosidade e o desejo de beber no domingo vazio.

O som da missa estava alto. Se entrecortava entre o nosso.

Descobrimos, depois, que o som da missa estava mais alto do que o normal e que o padre pediu para seu irmão conferir se tínhamos autorização para estar lá, para tentar barrar a apresentação. Tínhamos. Tivemos que conviver. Assim como os outros, para fora da praça o tem sempre.

Finalizamos esse dia, última apresentação da circulação, entre os desenhos de Ricardo Woo, nos vendo traçadas em carvão, carvão que havia deixado as mãos de Ricardo tão escuras quanto as nossas, após roçar no chão. Ele nos mostra os desenhos e fala da dificuldade de se capturar um movimento, algo tão rápido.

Fica em nós, após essa circulação, a mesma impressão… Uma dificuldade de captura de tudo que se passou. Uma miríade de sensações condensadas e de intensidade pouco nomeável. Agradecimento a cada chão e cada olhar.

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Fotos: Nina Bamberg