Sobre Trabalhos: Instruções para o Colapso no Rio de Janeiro – RJ

Seguimos com a circulação nacional de Instruções para o Colapso, contemplada pelo Prêmio FUNARTE Klauss Vianna de Dança 2013, desta vez região Sudeste, pousando na cidade maravilhosa.  O Coletivo se propôs a realizar uma série de atividades no Rio de Janeiro, entre elas: uma Incubadora de Criação com o Grupo de pesquisa em Dramaturgias do Corpo da UFRJ – em parceria com a artista Lígia Tourinho; duas oficinas Corpo-Cidade | Performances Urbanas Coreográficas – uma realizada na UFRJ e outra na Faculdade Angel Vianna; e duas apresentações do Instruções para o Colapso –  uma no sábado, dia 11 de outubro, às 11h na Cinelândia; e outra no domingo, dia 12 de outubro, às 16h no Largo do Machado.

No Rio de Janeiro os processos se realizaram de forma mais verticalizada pela intensidade das ações. Um cidade em transformação constante, um canteiro de obras. Logo na entrada da cidade nos deparamos com o Porto Maravilha, projeto que regula a revitalização da zona portuária e altera de forma significativa a chamada paisagem cultural do Rio de Janeiro. Além de não garantir que se permita a construção de moradias de interesse social, nem que a população hoje residente no local não seja expulsa – com a valorização decorrente dos enormes potenciais construtivos atribuídos a região.

Estes deslocamentos de populações humildes sempre foram recorrentes nos processos históricos no Rio. Uma cidade marcada por conflitos de grande porte, como a Revolta da Vacina. Como centro político do país, o Rio foi palco principal dos movimentos abolicionista e republicado na metade final do século XIX. Com a Proclamação da República enfrentou graves problemas sociais advindos do crescimento rápido e desordenado. Com o declínio do trabalho escravo, a cidade passou a receber grandes contingentes de imigrantes europeus e de ex-escravos, atraídos pelas oportunidades que ali se abriam ao trabalho assalariado. O aumento da pobreza agravou a crise habitacional, traço constante na vida urbana do Rio desde meados do século XIX. O epicentro dessa crise era ainda, e cada vez mais, o miolo central – a Cidade Velha e suas adjacências-, onde se multiplicavam os cortiços e a cidade era foco endêmico de uma infinidade de moléstias: febre amarela, varíola, febre tifoide, impaludismo, peste bubônica, tuberculose, dentre outras.  Muitas campanhas de erradicação, perpetradas pelos governos da época, não foram bem recebidas pela população carioca. Houve muitas revoltas populares, entre elas, a Revolta da Vacina, de 1904, que também teve como causa a tomada de medidas impopulares, como as reformas urbanas do centro, executadas pelo engenheiro Pereira Passos. Varios cortiços foram demolidos e a população pobre da região central deslocada para as encostas de morros, na zona portuária e no Caju. Tais povoamentos cresceram de maneira desordenada, dando início ao processo de favelização – o que não impediu a adoção de varias outras reformas urbanas e sanitárias que modificaram a imagem da então capital da República.

Pode-se deduzir, portanto, que a transformação do plano urbano da capital obedeceu a uma diretriz claramente política, que consistia em deslocar aquela massa temível do centro da cidade, eliminar os becos e vielas perigosos, abrir amplas avenidas e asfaltar as ruas. E, com efeito, a medida mostrou-se adequada: a Revolta da Vacina foi o último motim urbano clássico do Rio de Janeiro. Se o remédio foi eficaz, o diagnóstico foi exemplar. A demolição dos velhos casarões, àquela altura já quase todos transformados em pensões e cortiços, provocou uma crise de habitações que elevou os aluguéis e pressionou as classes populares para os subúrbios e para cima dos morros que circundam a cidade. A enorme pressão por imóveis, devida tanto às demolições das zonas central e portuária, quanto à especulação, empurraram as populações humildes para a periferia da cidade, ou para os bairros mais distantes e degradados, onde se alojavam em condições subumanas e pagando preços exorbitantes.

E estes deslocamentos populacionais tem sua continuidade hoje no Rio de Janeiro com as obras da Copa 2014 e Olimpíadas 2016 e os inúmeros casos de despejo e remoção forçada. Trata-se, via de regra, de comunidades localizadas em regiões que, ao longo do tempo, tiveram enormes valorizações e passaram a ser objeto da cobiça dos que fazem da valorização imobiliária a fonte de seus vultosos lucros. Deslocamentos estes que nos fazem refletir sobre este Corpo-Cidade, e estas constantes transformações a que o corpo é submetido e convidado ao embate.

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Foto: Val Lima

As apresentações do Instruções para o Colapso foram realizadas no Largo do Machadono sábado, na Cinelândia e, no domingo, no Largo do Machado.  As duas localidades onde ocorreram as apresentações são marcadas por conflitos sócio-políticos e ocupações populares. A Cinelândia desde o golpe militar tem sido palco de protestos da sociedade civil e o Largo do Machado – devido à proximidade do Palácio Guanabara, atual sede do Governo do Estado do Rio de Janeiro – também se caracteriza enquanto espaço de tensão e conflito permanente. A apresentação da Cinelândia gerou uma relação mais contemplativa do público – convidado e espontâneo – com o trabalho, devido a amplidão e a linearidade de sua arquitetura; já o Largo do Machado, gerou relações intensas e diretas do público – convidado e espontâneo – com o trabalho, uma vez que a praça estava ocupada por uma feira de artesanato e seus territórios ficaram condensados e repletos de fronteiras e limites espaciais sociais, o espetáculo borrou esses limites, aproximando e tensionando relações entre grupos que normalmente se mantém apartados no Largo.

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Foto: Vivi Bezerra

No Rio de Janeiro, as oficinas ocorreram a partir de uma parceria com a Angel Vianna Escola e Faculdade de Dança e também com o Curso de Dança da UFRJ. A primeira oficina foi realizada nos dias 07 – das 13h40 -15h30, 08 – das 15h10 -17h e 09 – das 14h -18h – de outubro de 2014, com duração de 7h40, na Angel Vianna Escola e Faculdade de Dança, no Rio de Janeiro/RJ. A segunda oficina foi realizada no dia 10 de outubro de 2014, – das 14h – 17h, na Escola de Educação Física da UFRJ, no Rio de Janeiro/RJ.

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As oficinas Corpo-Cidade | Performances Urbanas Coreográficas foram realizadas na Facudade Angel Vianna, em Botafogo, e na UFRJ, na Ilha do Fundão. Contextos bem diferentes, as proposições se transformaram de acordo com as diferentes localidades. Na Angel Vianna fizemos proposições de ações na rua, nos entornos da faculdade, e as provocações de co-autoria da rua suscitaram questionamentos sociais e éticos do fazer arte em contextos urbanos. Na UFRJ, a proposta de ocupação se deu nos espaços internos da Escola de Educação Física, onde o departamento de Dança é sediado. A UFRJ, mais austera, se assemelha por vezes a uma prisão. As diversas camadas de história desta universidade acoplam a ela uma certa densidade –  sua história se confunde a própria história do desenvolvimento cultural, econômico e social brasileiro e muitos dos seus cursos vêm da época da implantação do ensino de nível superior no país; ela é reestruturada no Governo Vargas e durante a ditadura militar sofre  inúmeras perseguições políticas. A turma da UFRJ tinha uma proximidade muito grande com trabalhos e improvisação e composição, sendo assim as propostas de ações foram muito bem aproveitadas por eles dialogando constantemente com o espaço de jogo.

A Incubadora de Criação se deu em parceria com o Grupo de Pesquisa Dramaturgias do Corpo, coordenado pela professora Lígia Tourinho, na escola de dança da UFRJ. O grupo tem como tema principal discussões sobre dramaturgias, composição e encenação. A proposta do laboratório foi que as integrantes do Coletivo assistissem a trabalhos em processo de alunos do último e penúltimo ano do curso de dança, em vias de atravessar seus processos com os olhares de dramaturgias e composição que circunscrevem o trabalho do Cartográfico.

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Agenda: Oficina Corpo-Cidade | Performances Urbanas Coreográficas na Angel Vianna no RJ

As integrantes do Coletivo Cartográfico irão oferecer gratuitamente a oficina Corpo-Cidade | Performances Urbanas Coreográficas na Faculdade Angel Vianna de Dança no Rio de Janeiro/RJ – dia 07/10, Terça –13h40 às 15h30 / dia 08/10, Quarta  – 15h10 às 17h /  e dia 09/10, Quinta – 14h-18h.

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A oficina faz parte do projeto de circulação do espetáculo Instruções para o Colapso, contemplado pelo Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna 2013.

Essa oficina na Angel Vianna será a maior oficina que o Coletivo dará durante a circulação do trabalho, com a duração de três dias, nos quais serão trabalhadas questões estruturais e criativas desenvolvidas pelo Cartográfico durante a concepção do espetáculo – procedimentos corporais, de relação com a cidade e de improvisação corpo-cidade.

Para se inscrever, entre em contato com a secretaria da Faculdade Angel Vianna – (21) 2551-0099.

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Maiores informações no site:

http://escolaangelvianna.locaweb.com.br/blog/?p=3407

Agenda: Instruções para o Colapso no Rio de Janeiro – RJ

Depois de Palmas/TO, São Paulo/SP e Curitiba/PR, o Coletivo Cartográfico irá apresentar o espetáculo Instruções para o Colapso na cidade do Rio de Janeiro/RJ, como parte do projeto de circulação nacional do trabalho, contemplada pelo Prêmio Funarte Klauss Vianna/2013.

O Rio de Janeiro vivenciou e vivencia processos intensos, constantes e violentos de construção e reconstrução urbana, que são disputados por manobras políticas, turísticas, televisivas e de apropriação e/ou insurgência popular. Trata-se, portanto, de um campo muito intenso para a recriação do Colapso.

O espetáculo irá acontecer no dia 11 de outubro, sábado, às 11h na Cinelândia; e no dia 12 de outubro, domingo, às 16h no Largo do Machado.

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Na cidade, além da apresentação do trabalho, o Coletivo Cartográfico irá oferecer duas oficinas distintas (uma na Faculdade de Dança Angel Vianna e outra no Campus de Dança da UFRJ) e realizará uma troca artística com o Grupo de Pesquisa em Dramaturgias do Corpo, da UFRJ. Aguarde mais informações em nosso blog.