Reflexões: Inquietude – Experimentações fora do lugar

 “Experimentações fora do lugar!” – Coletivo Cartográfico e Núcleo de Garagem – intervenção  no Parque da Juventude,  uma das ações do  1.o Intercâmbio de Idéias e Ações – deslocamentos e instantâneos –  a convite do Núcleo Cinematográfico de Dança. – 25.05.12

Inquietude 

por Monica Lopes

O Coletivo Cartográfico foi convidado pelo Núcleo Cinematográfico de Dança a participar do 1.o Intercâmbio de Idéias e Ações em uma intervenção com o Núcleo de Garagem no Parque da Juventude, tendo como propositora Carolina Nóbrega – integrante do Coletivo Cartográfico.   A proposta a priori foi instigante e perturbadora, por ser ela complexa e cheia de micro proposições que traziam um choque de informações e de conflitos que iriam desembocar em uma fisicalidade também esta perturbadora .

Fiquei deveras instigada na pesquisa anterior ao dia – sites sobre a ‘Praga da Dança’/ Dancing Plague [http://dsc.discovery.com/news/2008/08/01/dancing-death-mystery.html]   e sobre Tarantismo [http://www.youtube.com/watch?v=q_uz_-YnauM]  – que eram referências para a intervenção. Ficou dentro de mim esta sensação e questionamento: o que fariam estas pessoas dançarem até morrer em 1518? E no dia: o espaço em si –  inquietante! – carregado de memórias marcadas. Estávamos nas ruínas de celas solitárias do Carandiru. Um dia depois de uma intensa chuva –   poças de água por todos os lados! E as pessoas no jogo traziam um inesperado e faziam a ação conter um determinado nível de risco e de instabilidade ainda maior.  A dança como cura e como risco de morte. Tarantismo.

Era difícil se manter todo o tempo nesta mesma fisicalidade, demandava energia e concentração. E com o passar do tempo começamos a ser observados por frequentadores do Parque – em especial um grupo de adolescentes  que nos acompanharam do início até o fim da ação.  Havia também uma atitude de contágio, afetação –  a movimentação era contagiosa e a relação de grupo se fazia como um grupo tentando sobreviver,  mantendo-se próximos uns dos outros.

O que ficou do dia para mim foi uma inquietude. Restou uma perturbação – no corpo e no dentro do corpo. Tudo completamente fora do lugar. Revirada ao avesso. Tinha um pouco de avesso em tudo isso. Avesso de corpo – ações contra a vontade – mas por uma escolha de estar ali naquela experiência. Não tem volta. Um abismo entre o antes e o depois. Não tem volta. Dançar até morrer. Esta inquietude vai permanecer. Sensação de ser atravessada pelo espaço, ficar exposta, nua, crua. Permissão de quebra de si mesmo. Lugar de risco para si e para a sociedade. Dançar até morrer.  Cacos de si mesmo no chão restaram pelo espaço.

E o filme, lindo! Um instantâneo cheio de beleza, que assistimos logo depois da ação. Depois conversamos. Conversa boa, entre grupos e convidados que estavam ali – com pipoca e refrigerante – que trouxe algumas reflexões também instantâneas. Instantâneo não quer dizer superficial e acho que foi isso que provamos dentro desta semana cheia de experiências bastante profundas, entre elas esta do Parque da Juventude.

*Tarantism – Joachim Koester