Reflexões: Casa 382 parte II

por Monica Lopes
Hoje era o grande dia, despedida da casa. Um misto de festa e melancolia pairava no ar de maneira simultânea. Havia abertura para extremos e excessos –  um dia de exceção – e assim era mais que necessário ir até o limite do vivido e experimentado até agora.

A moça dos galhos havia perdido todos os seus galhos na noite passada, e os deixou pindurados a enfeitar os varais de linha ainda perdidos entre um espaço e outro. Ela ficou grande parte do dia envolvida com o varal de fotos e com pequenos espelhos que encontrava e trincava, e passeava, e se olhava. Entre fotos e memórias estava ela dançando e espalhando as fotos pelo chão da cozinha. Ficou por horas ali entocada no seu canto preferido da casa. Eu a olhava por entre frestas de pedaços de papéis e figuras de família. A cozinha nunca esteve tão povoada, estavam presente muitas famílias e estas ocupavam pensamentos e histórias no espaço da cozinha.

Neste dia, de certa maneira, todas nós ficamos um pouco entocadas, cada qual no seu ambiente preferido da casa. A moça das silhuetas ficou no quarto em horas intermináveis, acendeu finalmente as velas e ficou dias a olhá-las derreter, havia muita paciência nos seus gestos ao acender uma por uma, e depois voltar a acender quando uma das velas por algum motivo apagava. A cera das velas escorria na parede, como um rio que insiste em se manter vivo. Depois ela morreu.

Eu nesta hora estava na sala a quebrar, trincar, destruir tudo o que havia restado dos espelhos, eu cantava ininterruptamente e me fundia àqueles espelhos trincados, até desaparecer e ver restar apenas uma boca muito vermelha –  me via como uma boca a se mover sozinha e a cantarolar os fados quase que automaticamente. A moça das silhuetas estava a beira da porta e de seus olhos escorriam lágrimas suaves, delicadas, que se opunham ao movimento frenético da quebra dos espelhos.

Eu estava silenciosa. Havia algo de festa lá fora. Saí para lavar-me, necessidade de mudar de estado, mudar de roupa, despir-me. O ato de lavar os meus cabelos me transportava para outra temporalidade. E de repente encontro-me de frente com a matrona, a antiga dona da casa. Ela sorria e me olhava feliz por encontrar espaço para contar suas memórias e histórias das casas para muitos ouvintes. Eu fiquei apenas parada a olhá-la e ela continuava a caminhar com muita intimidade pelo corredor. Entrei em casa eufórica e comecei a dançar, minhas partes trincadas, eu me via em partes através dos espelhos. E dançava ouvindo as histórias, frases ou palavras soltas que conseguia distinguir – as histórias estavam sendo contadas lá fora. Eu repetia as palavras e dançava, como se quisesse que as memórias me penetrassem e ficassem cravadas também dentro de mim.

Depois fui para janela e continuei acompanhando o movimento lá fora no corredor. Eu queria cantar mais uma vez, mas estava quieta, cantarolei de maneira tímida. E aos poucos comecei a ouvir gemidos, era a moça das silhuetas que começava a se mover no quarto, eram delicados seus gestos e um pouco retorcidos. Eu a vi, as velas já haviam se apagado. Corri para a sala novamente e, com a ajuda da moça dos galhos peguei o grande vidro que permanecia recostado na parede desde minha chegada àquela casa. Eu ficara ali, deitei-me em cima do vidro, aquietei-me. Aos poucos comecei a mover meu corpo nesta plataforma frágil e vulnerável e com o peso este foi rachando em partes cada vez menores. Senti-me perecível e sendo demolida por dentro. Tornei-me furacão, rodopiei entre os vidros e espelhos que estavam espalhados pela sala. Tudo se desfazia, se desfocava e eu girava sem fim. A sensação de respiração ofegante, a falta de chão e perda de espacialidade eram reais. Fiquei lá até não suportar mais e cair.

A moradora do quarto havia novamente silenciado. Silêncio. Mas exatamente como um suspiro antes da morte, o silêncio se desfez e deu lugar a um sem fim de marteladas, marretadas e sons de vidraças se quebrando. Era uma primeira demolição efetiva em coletivo. Quase uma histeria coletiva. Havia se criado um movimento de quebrar paredes, havia algo de festa, de alegria, de tristeza, de saudade já. Muitos momentos vividos ali e tudo estaria logo mais demolido.

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Sobre Trabalhos: estudo para a morte – casa da purpurina

O Coletivo Cartográfico, participou junto com outros artistas e coletivos de diversas áreas artísticas, de uma ocupação/residência numa vila de casas em vias de uma demolição, no bairro da Vila Madalena em São Paulo. Cada artista ocupou uma casa diferente da vila, ou propôs intervenções no corredor, na área comum entre as casas.

As casas eram muito antigas, construídas por portugueses imigrantes, casas de aluguel, como uma das vias de sustento –  à frente da casa, havia uma loja de comércio, que atualmente era um bar popular. A demolição das casas se deu para a construção de um condomínio residencial de alto padrão – sinal do processo acelerado de transformação do bairro e da cidade.

Diante das especificidades do espaço, o Coletivo escolheu investigar as possíveis relações entre espaço interno e espaço externo, compreendendo a casa internamente como um depósito de pessoalidades, em oposição ao espaço externo, onde se priorizam as convenções.

A casa ocupada estava lotada de memórias dos antigos moradores, que foram misturadas às das intérpretes-criadoras, ampliando e ressaltando o caos de sobreposições de memórias que habitam casas de aluguel. Para além disso, cientes da demolição e compreendendo a demolição como morte, final, encerramento de algo para o nascimento de outro algo, investigou-se demolições e mortes no corpo, cada dançarina à sua maneira… vendo de que maneira esses entrecruzamentos de universos singulares conseguiam dialogar numa quase esquizofrenia – que esbarra também nas neuróticas relações familiares de universos pessoais conflitantes.

O Coletivo explorou a criação de instalações espaciais, para ampliar no público a sensação de estar diante de um “interior”, uma casa-id, criando teias de pessoalidades entre as quais as dançarinas teciam suas movimentações. Todas as instalações criadas, ficaram nas paredes mesmo após o final do trabalho, para serem demolidas junto com a casa.

Não houve uma preocupação com um resultado final fechado, as intérpretes abriram a publico suas investigações inconclusas, buscando apostar na força de expor processos efêmeros, criados numa continuidade de fluxo, fluxo esse que foi interrompido com a demolição da vila.