Sobre Trabalhos: Instruções para o Colapso – de volta à Praça da Sé.

por Monica Lopes

Olhando com novos prismas de possibilidades depois da circulação pelas cidades do interior de São Paulo e revisitando materiais que geraram e atravessaram os nossos corpos via procedimentos de pesquisa e criação.  Compartilho impressões do dia que fizemos um  intensivão de procedimentos na Praça da Sé, para reconhecimento do espaço. Estavamos mudando do Anhangabaú para a Sé, e este novo espaço ainda era um grande mistério para nós. Agora de volta para a Praça da Sé nestes proximos dois finais de semana, resolvi por retomar este material de apontamentos e impressões muito vivos, que ainda permanecem e se entrelaçam com as vivências distintas que se fizeram em cada uma das cidade que passamos.

Últimas duas semanas do projeto Instruções para o Colapso!!!  Depois de uma série de colapsos a temporada volta para a Praça da Sé neste final de semana.

Datas da nova temporada: dias 21 (sábado), 22 (domingo), 27 (sexta), 28 (sábado) e 29 (domingo) de Setembro na Praça da Sé! Não percam e divulguem!

Instruções para o Colapso na Praça da Sé

Cartaz_instruçõesparaocolapso_final1_novatemporada_r1

Primeiro de maio, dia do trabalhador, calor intenso no início da tarde, praça da sé, centro de são paulo

circulavam muitas pessoas por ali, teve uma manifestação logo de manhã e ainda estavam desmontando todo o aparato

fizemos um intensivão de procedimentos um após o outro, sem pausa, no intuito de reconhecer este novo espaço

estavamos estávamos mudando do anhangabau para a praça da sé, meio afoitas,mudanças imprevistas da prefeitura devido a à copa das confederações e preparativos para a copa do mundo

tudo isso depois de tantas experiências e procedimentos vividos no anhangabau

um espaço completamente diferente, era o que estava diante de nós, no que concerne a pessoas era muito mais rico

uma infinidade de pessoas passavam e moravam nesta praça, mundos paralelos convivendo, respeitando, tolerando

por vezes, outras nem tanto

tivemos a oportunidade de presenciar a manifestação de moradores de rua, que acontecetodo ano, devido a uma chacina com 07 mortos – moradores de rua foram assassinados enquanto estavam dormindo

um mundo polifônico, com tempos e vozes completamente dissonantes

no meu corpo reverberaram ainda imagens, ficavam rastros, estes que invadiram um lugar íntimo, penetraram espaços subterrâneos

a repetição e as regras dos procedimentos levavam à a uma constante repetiçãodas trajetórias e, consequentemente, repetição das imagens que eram observadas: as pessoas no seu cotidiano, com micro-mudanças a cada volta que eu dava na praça

a cada repetição era possível observar mais detalhes, ver as pessoas de maneira crua –e, talvez mais nua – envolvidas em suas ações físicas cotidianas, e por vezes sem nem notar a existência deste observador externo

estar diante de uma vida íntima, lugar privado, sensação de não ter sido convidada

um olhar diretamente para o que não é visto, o que fica normalmente invisível as aosolhos no ritmo acelerados acelerado das cidades – as linhas invisíveis sociais que atravessam os lugares e territórios

o baile, o acolhimento depois de uma intensa curiosidade dos moradores de rua

no andar sem parar aleatoriamente, um desautomatizar começou a se fazer e deixava as camadas sobrepostas irem se descascando

as vontades primeiras eram desfeitas, desmanchadas, e abria-se espaço, assim, para o inesperado, o imprevisível

um procedimento após o outro, sem pausa, foram levando-me à a um estado de fruição-fluência-vulnerabilidade

o tempo se dilatou e a aproximação com o espaço e as pessoas se deu devido à a esta série de repetições do trajeto durante a deriva

era como se eu acompanhasse a história de cada uma daquelas pessoas no cairda tarde, a cada micro-mudança dentro da permanência de estar ali

as regras do chapéu e da roupa listrada me levavam sempre para o mesmo percurso

enquanto que a regra da pausa me levava a olhar, sentir a sé, em seus pormenores, vendo as pessoas em um misto de crueza e delicadeza

lembro de um sr. com manchas de sangue na testa, ele cochilava com a cabeça escorrendo para baixo, me lembrei do meu avô neste instante

uma sra. bem velhinha, com blusa vermelha, deitada, ela me olhava com tamanha profundidade cada vez que eu passava

vi outra sra. passando e lembro de alguém conversar com ela e dizer que o asilo estava para fechar, que ela devia se apressar

em outra pausa, lembro de um casal de namorados em um daqueles bancos arredondados de cimento

no baile era bastante divertido, muitas pessoas, muita festa, e um rítmo ritmo acelerado na dança

enquanto que ali na frente da igreja eu sentia um misto de turismo e cotidiano

quando eu deixei cair a fita adesiva no lago fiquei apreensiva e logo em seguida faleisem parar pela segunda vez por 10 min (um dos procedimentos do programa usado neste dia)

a primeira vez eu estava na frente da “casa abandonada”, o lugar estava vazio, só tinha eu e o vento, e uma mochila preta, que alguém esqueceu lá, e que parecia nova, com rodinhas

um homem apareceu e ficou lá sentado em uma das escadas na beirada de uma das portas das “casa abandonada”

eu via ele de longe, eu estava em frente as casas

ele gesticulava sem parar, e falava ao celular de maneira apreensiva ele falava com alguém e dizia: “você precisa parar de chorar! você precisa parar de chorar!!”

e continuava a gesticular e a falar cada vez mais alto

eu seguia falando sem parar gravando no celular e olhando para os detalhes dademolição das casas, as janelas, os vidros, as portas, as paredes, a escadaria

na segunda pausa eu estava bem perto, quase  na “Casa Abandonada”, no cruzamento bem perto do local onde os moradores de rua se concentram, mas um pouco mais perto da calçada e da rua

lá fiquei observando uma mulher de vestido amarelo e com uma blusa vermelha na cabeça

ela gesticulava e deixava as mãos moles, como se mortas, e estas balançavam soltas, enquanto ela se movia

atravessava a rua por vezes sem olhar, não se preocupava muito com os carros, nem com as pessoas, nem mesmo consigo parecia

eu fiquei ali, observando cada gesto daquela mulher, em um misto de estranhamento e curiosidade

pessoas passavam e não a viam ou fingiam não vê-la

ela era invisível

mas eu a via, e ela se movia com os gestos das mãos tapando o sol, ou balançando os braços em movimento cruzado

em certo momento ela se aproximava das pessoas, pedia algo, e continuava a gesticular com as mãos

tentou se comunicar com um casal, este a viu, mas fingiu que não viu e sairam saíram apressados, logo que puderam, quando o farol abriu

eles foram embora, e ela continuou ali neste chacoalhar de gestos e neste ir e vir no cruzamento

dali eu segui para tentativa de solucionar o problema de ter deixado a fita cair no lago

fui até uma banca de jornal e comprei uma fita adesiva e algo que parecia uma bobina de papel, o que encontrei para escrever os comandos e dar nomes aos atratores, como combinado que seria o proximo próximo passo dos procedimentos do dia

comecei, era risível a cena eu tentando ser rápida, mas deixando escorregar pelas mãos o rolo da bobina de papel, ou o canetão

sentava no chão, para melhor me acomodar e fazer o procedimento, e com isso, aos poucos comecei a me sentir em casa

as pessoas me paravam a toda a hora para perguntar o que eu estava fazendo, e as às vezes até para me ajudar, outras queriam seguir os comandos escritos, ou queriam saber o que ia acontecer, ou porque eu estava fazendo aquilo exatamente ali

elas queriam saber se era balé, teatro ou manifestação política

eu conversava com elas ao mesmo tempo que tentava dar conta de escrever os nomes e os comandos e colá-los em algum lugar visível

neste momento eu já havia aceitado a situação estava completamente envolvida com as pessoas e com o lugar

uma sra. com uma criança me perguntou porque tinha tanta gente colando estas coisas?

em uma das trajetórias eu ouvi um homem dizer: “elas estão fazendo exercício, elas fazem isto também lá no anhangabau”

outro perguntou se a gente não cansava nunca

e outro, que estas meninas adoram correr

quando voltei na casa em demolição para colar o comando, estava cheio de gente

todos os moradores de rua, que estavam concentrados mais perto das escadarias seguiram para lá para fumar crack e lá estavam

eu sentei no chão para escrever o comando, e um menino veio me indagar o que eu estava fazendo

assim que respondi, ele perguntou se eu queria ajuda e logo estava ele colando o comando para mim em uma das portas da “casa abandonada”

quando ele conseguiu colar acenei para ele agradecendo e fui me encontrar com as meninas

já era tarde, senti o celular tocando no meu bolso, era a fabi, eu havia perdido completamente a noção do tempo e estava bem emocionada

senti muitas vezes vontade de chorar e naquele momento eu me sentia demolida por dentro de muitas maneiras diferentes e simultâneas

fizemos as trajetórias e comandos de cada uma em coletivo e a transitoriedade dos espaços se deu na mudança das pessoas de lugar

começamos com a carol na “casa abandonada” junto aos moradores de rua, pequenas explosões, parede explodindo, seguimos, suspender com o vento, demolir e erguer muitas vezes com o vento, demolir-se na dança do grande “salão de festas”

observar o orador, dar voltas no guarda-chuva de sapatos

agora era eu, “grande passagem central”, seguir lentamente pelo corredor de pessoas que ficam sempre paradas sentadas olhando a movimentação da sé

explodir diversas vezes na primeira ponte, seguir e derreter-se

deslocando na segunda ponte,

ficar em pausa, olhando o lago, queda d’agua, contar até 30

seguir pelo canteiro do lago pela lateral, descer a escada pequena que leva ao lugar onde se ouve bem o som da água dentro do metrô, subir escada

segue e desce as escadarias correndo, corre até a “casa abandonada”, pausa, demolir-se por dentro, pequenas implosões 

neste momento um moço veio conversar com a gente, perguntou se a gente tinha sido

assaltada, afinal porque estavamos estávamos correndo? pedimos desculpas e falamos o que estavamos estávamos fazendo

ele abriu um imenso sorriso e disse que ficassemos ficássemos a à vontade, pois ali eles eram todos amigos dele e que ninguem ninguém ia mexer com a gente

ficamos um tempo ali em silêncio, com pequenas demolições

seguimos, era a dea agora: “salão de festa”, baile a céu aberto, observar a moça de vestido verde, dar voltas no guarda-chuva dos sapatos, orelhão cair, subir escada da igreja catedral, mover no entre-espaço, se demolindo lentamente até a banca de jornal, desmoronar

caminhar em linha reta em volta da banca de jornal

vai até a outra banca, senta e vê o movimento

agora fabi, senta embaixo de uma árvore, se ancora e sobe se segurando nos galhos

sobe e desce dos muros, sobe saltando e pula, vento do inflar no lugar de estender roupas, andar lentamente e depois se mover inflando no vento, ancorando nos bancos, e correr atras atrás da fabi, sentar e apenas observar.

 

Sobre Trabalhos: Relatos do Início – O Anhangabaú…

Começo. Vale do Anhangabaú era nosso espaço-sede, por sua história de reconstruções, por suas riquezas espaciais… mas, um projeto chama seu tema: corpo-cidade e suas inconstâncias, colapso imanente.

O Anhangabaú ao fim de semana era vasto e vazio. Preenchido de pequenas solidões dispersas. Nossos poucos corpos, perdiam-se em sua vastidão. Derivamos, de maneiras diversas. Nomeamos seus espaços para melhor caber. O Anhangabaú era quase quinzenalmente preenchido por grandes eventos de todas as naturezas. Dia da mulher. Show de hip-hop. Evento evangélico. Os eventos nos engoliam, tornando nossos corpos inviáveis.

Ainda assim, talvez quixotamente, decidimos enfrentar o gigante-moínho, e desdobrar suas possibilidades ativas, encarando tudo que o espaço demolia em nós como potência.

Mas eis que mais impossibilidades se acumularam. Aquele espaço é palco do principal telão de copa do mundo há anos… lá seria montado o telão da copa das confederações e, pior do que isto, entraria em reforma no segundo semestre para a copa do mundo de 2014…

Desistimos. Demolições demais. Corpo frágil… decidimos ir para a Sé.

Mas, aqui, postamos procedimentos iniciais do processo… do qual de derivas e aproximações com o Vale, surgiram mapas, percursos, gravações e imagens de lugares por nós renomeados… Compartilhamos portanto, alguns materiais criados em março, que podem disparar possíveis experiências no trato coreográfico com a cidade:

A partir destas cartografias, nós renomeamos diferentes espaços do Vale, como se vê:

IMG_1547 IMG_1554 IMG_1560 IMG_1565 IMG_1567 IMG_1568 IMG_1577IMG_1573 IMG_1591 IMG_1583 IMG_1588

Sobre Trabalhos: Novo projeto – Instruções para o Colapso

Coletivo Cartográfico em 2012 foi contemplado pelo edital ProAC de Apoio a Projetos de Primeiras Obras de Produção de Espetáculo e Temporada de Dança no Estado de São Paulo, com o projeto Instruções para o Colapso.

O projeto será de fato o primeiro trabalho do Coletivo que tomará ao final a forma de um espetáculo – tendo até então trabalhado com residências, performances, derivas, intervenções e pesquisas corporais não abertas à público. Instruções para o Colapso será um espetáculo de dança contemporânea a ser desenvolvido e apresentado na rua, a partir da relação direta de risco e escuta entre corpo e cidade. Ao decorrer do processo de criação, entretanto, serão desenvolvidas uma série de programas performativos, bem como uma oficina de criação aberta ao público.

As pesquisas para a criação do espetáculo terão início agora em fevereiro de 2013, sendo a previsão de estréia e temporada do trabalho em agosto deste mesmo ano, e uma circulação por algumas cidades do interior do Estado de São Paulo, prevista para setembro. Todo o processo de criação e pesquisa e as ações envolvidas nele poderão ser acompanhadas através de artigos que serão constantemente postados neste blog. Trata-se de um projeto que será desenvolvido de forma auto-gestionária pelas integrantes do Coletivo, ou seja, a concepcão e a direção da pesquisa serão constantemente desenvolvidas pelas próprias integrantes do Cartográfico, contando, todavia, com o auxílio, a preparação e a provocação de alguns artistas convidados.

Um pouco acerca da pesquisa que envolve Instruções para o Colapso:

As integrantes do Coletivo compreendem a cidade como um sistema em constante mutação. A arquitetura, uma marca humana que supostamente sobreviverá ao homem, é também despida em sua fragilidade, a partir de demolições e construções. Dessa maneira é da própria natureza urbana exigir ao homem estar em constante deslocamento e adaptação, não há descanso. O corpo urbano, portanto, sendo paisagem, é também um campo-arquitetônico móvel, apto à demolições e construções.

Instruções para o Colapso investigará paisagens e arquiteturas  corpo-espaciais como sistemas de significados que são construídos e re-construídos a todo tempo, buscando novas possibilidades desse estar urbano impermanente.

O Coletivo Cartográfico explorará a impossível estabilidade do corpo que vive a experiência urbana, que tenta e não consegue definir para si uma identidade. Procura-se estabelecer uma ilusão de estabilidade, uma situação de descanso e compreensão que imediatamente se desfaz, sendo novamente obrigado a se demolir e se readaptar a novas situações de existência que o espaço e suas infinitas inter-relações sugerem ou exigem.

Equipe envolvida no projeto:

Concepção, Criação e Performance – Integrantes do Coletivo Cartográfico: Andrea Mendonça, Carolina Nóbrega, Fabiane Carneiro, Monica Lopes

Direção: Coletivo Cartográfico

Preparadores corporais: Henrique Lima e Jerônimo Bittencourt

Provocador artístico: Alex Ratton

Trilha Sonora: Felipe Merker Castellani

Produção: Viviane Bezerra

Fotos: Demolições – Casa da Purpurina

As fotos abaixo são registros da pesquisa Estudos Para a Morte realizada na Casa da Purpurina pelo Coletivo Cartográfico, parte do projeto Perturbações Emocionais da Cidade, convidados pelo Núcleo de Garagem.

Série Sala II – Amontoados sobre anotações, agendas, cartas, cadernos, livros, correspondências e outras da mesma espécie…

Monica Lopes, Andrea Mendonça e Carolina Nobrega

Este slideshow necessita de JavaScript.

Fotos de Juliana Gennari

Fotos: Demolições – Casa da Purpurina

As fotos abaixo são registros da pesquisa Estudos Para a Morte realizada na Casa da Purpurina pelo Coletivo Cartográfico, parte do projeto Perturbações Emocionais da Cidade, convidados pelo Núcleo de Garagem.

Série Sala – Monica Lopes participação: Andrea Mendonça

Este slideshow necessita de JavaScript.

Fotos de Juliana Gennari

Sobre Trabalhos: Processo Demolições

Após a experiência na Casa da Purpurina, o Coletivo Cartográfico decidiu, em 2012, adentrar num processo de pesquisa criativa para a criação de um espetáculo de dança para a rua. Divindo as pesquisas entre a sala de ensaio e programas de intervenções de rua, está-se construindo um corpo-campo em constante processo de demolição e reconstrução para se adaptar ao ritmo de situações distintas que a cidade impõe. A partir desse primeiro post, escreveremos acerca dos programas de intervenção que estamos realizando, que compõe parte da pesquisa em que o Coletivo está a se debruçar esse ano.

Glossário:

Programa: Termo proposto pela pesquisadora carioca Eleonora Fábião para pensar uma possível via de estruturação para trabalhos de performance. Ela extraiu o termo do texto Como Criar para Si um Corpo Sem Órgãos de Gilles Deleuze e Felix Guatarri. Programa seriam as instruções, as regras que o artista estabelece para viver sua experiência performática que o desloca da lógica cotidiana. Para além das regras, que nunca devem ser abandonadas, tudo é acaso.

Dispositivo: Estratégia, jogo, agenciamento, criado através de um programa de ações, que haja de forma a desorganizar a forma cotidiana de estar/compreender/sentir/experimentar a cidade. Um dispositivo parte sempre de um programa, mas pode ser realizado através de uma deriva, de um performance, de uma cena, ou de qualquer elemento que se julgue necessário para sensiblizar os atuantes ao risco de habitar a esfera urbana.

Deriva: Termo utilizado por uma série de artistas para ações de deslocamento inusitado na esfera urbana. O nome provavelmente surge da Internacional Situacionista (IS) francesa que se propôs a repensar a cidade através propostas de uso do espaço urbano que contivessem a noção de jogo, risco e acaso. As propostas da IS foram muito influenciadas pelas idéias de Johan Huizinga em seu livro Homo Ludens. Como o nome já explicita, a proposta consiste em se dispor à experimentar a cidade fora do lógica de uso cotidiana, se por à deriva, ao acaso, ao risco, através da criação de regras inusitadas de deslocamento. A IS, por exemplo, desenvolveu ações nas quais os participantes tinham que chegar que ir de um lugar A a um lugar B seguindo às orientações de um mapa de Londres, estando fisicamente em Paris, se deslocando pela cidade e chegando em lugares que de outra forma, jamais explorariam.

 

Reflexões: Demolir-se

por Monica Lopes

O que está escrito aqui são restos de uma demolição de alma, são cortes laterais de uma realidade que me foge continuamente. Esses fragmentos de livro querem dizer que eu trabalho em ruínas. [Clarice Lispector]

O que são estas forças internas que nos movem, com absoluta urgência? Urgência de vida, urgência de morte, urgência de vida-morte-vida.

Uma dança.

Demolir-se, demolir significados, imagens muito bem construídas, valores inconscientes, sonhos mortos. Demolir-se de dentro para fora. Implodir, quebrar-se até que descasque, desmonte, trinque, exploda como consequência também por fora.

E que cada caco se mova por kms, encontre novos territórios e se re-faça enquanto significado.

E lembrei-me deste poema de Florbela Espanca:

RUÍNAS

Se é sempre Outono o rir das primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair…
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruínas crescer heras.
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino de Quimeras!

Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais altos do que as águias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!… Deixa-os tombar… deixa-os tombar…