Reflexões: Demolir-se

por Monica Lopes

O que está escrito aqui são restos de uma demolição de alma, são cortes laterais de uma realidade que me foge continuamente. Esses fragmentos de livro querem dizer que eu trabalho em ruínas. [Clarice Lispector]

O que são estas forças internas que nos movem, com absoluta urgência? Urgência de vida, urgência de morte, urgência de vida-morte-vida.

Uma dança.

Demolir-se, demolir significados, imagens muito bem construídas, valores inconscientes, sonhos mortos. Demolir-se de dentro para fora. Implodir, quebrar-se até que descasque, desmonte, trinque, exploda como consequência também por fora.

E que cada caco se mova por kms, encontre novos territórios e se re-faça enquanto significado.

E lembrei-me deste poema de Florbela Espanca:

RUÍNAS

Se é sempre Outono o rir das primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair…
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruínas crescer heras.
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino de Quimeras!

Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais altos do que as águias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!… Deixa-os tombar… deixa-os tombar…