Agenda: Instruções para o Colapso em Palmas-TO

Nesse mês de agosto iniciam-se as ações do projeto Instruções para o Colapso – Circulação contemplado pelo Prêmio Funarte da Dança Klauss Vianna 2013.

O espetáculo de dança contemporânea criado na e para a rua, Instruções para o Colapso, foi criado durante o ano de 2013 – com o apoio do ProAC Primeiras Obras de Dança da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Trata-se de uma pesquisa de dança em interface com a linguagem da performance, na qual as integrantes do coletivo investigam um corpo-de-risco de uma dança que colide com a rua. Trata-se de um trabalho que a cada apresentação vive um novo processo de co-autoria radical com o contexto de sua realização.

Circular, portanto, com o espetáculo, significa pra o Coletivo Cartográfico, dar continuidade e aprofundamento a essa pesquisa de uma dança inconclusa, disposta ao atravessamento, a partir dos contextos radicalmente diversos nos quais o espetáculo será apresentado.

As primeiras apresentações do projeto serão nos dias 29 de agosto (16h30) e 30 de agosto (09j00) na cidade de Palmas – TOCANTINS, em parceria com o Convergência 2014 – Mostra de Performance Arte do SESC Tocantins.

Nessas primeiras ações do Projeto, portanto o trabalho irá até o Norte do país, colidindo a pesquisa em dois diferentes espaços de Palmas, deixando que o trabalho se ressignifique completamente, revelando o local às integrantes do Cartográfico, a partir da perda de fronteiras entre suas peles e o chão da cidade.

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Diálogos: Desenhos de Ricardo Woo

Desenhos de Ricardo Woo, feitos durante a apresentação de Instruções para o Colapso no dia 15 de setembro de 2013, em Santo André, ultima cidade da circulação feita com o apoio do ProAC Primeiras Obras de Dança 2012.

Um presente. Uma Surpresa. Obrigada Ricardo.

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Sobre Trabalhos: Instruções para o Colapso em Santo André

Aos domingos, na Praça do Carmo de Santo André, o comércio não abre. O movimento, que preenche as vagas de carros, é o da Igreja.

Era silencioso e calmo. Chegamos em nosso passo lento. Uma senhora se aproxima. Pergunta se haverá dança, veio para isso, havia visto no guia. Ela, descobrimos depois, havia trabalhado com o Teatro do Oprimido de Boal. Um homem com uma prancheta cheia de papéis e um carvão nos procura com o olhar e deixa sua mão riscar traços no papel, nos desenha. Ele, descobrimos depois, era Ricardo Woo.

Ao contrário do que constava no hiper-produzido site da Igreja, no horário que escolhemos para apresentar o trabalho, havia missa. Chegamos entre o som da missa e, justamente, nos sentamos nos degraus da escadaria. Era possível ver os homens em suas túnicas de culto. Era possível ouvir os cantos. E nós, com nosso som ruidoso, escorríamos suas escadas.

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Um homem sai para fora da Igreja e nos observa, olhar rígido e reprovador. Na frente da Igreja, um posto policial e um carro. Os policiais também nos observam.

Um menino pequeno, de cerca de quatro ou cinco anos, sai para fora da porta da Igreja enquanto explodimos, ele nos olha em espanto, pula e ensaia uma dança de explosões, que dura pouco, pois sua mãe rapidamente o reprime e o re-encaminha para dentro do templo.

Outros homens nos seguiam. Um nos olhava pela sacada.

Chegamos à Concha Acústica da praça para nossos momentos finais. Concha acústica que, soubemos, que seria soterrada por causa de um pedido do padre, que fora impedido por conta de um abaixo-assinado da comunidade. Nela, estava um grupo de adolescentes punks. Eles olhavam entre a curiosidade e o desejo de beber no domingo vazio.

O som da missa estava alto. Se entrecortava entre o nosso.

Descobrimos, depois, que o som da missa estava mais alto do que o normal e que o padre pediu para seu irmão conferir se tínhamos autorização para estar lá, para tentar barrar a apresentação. Tínhamos. Tivemos que conviver. Assim como os outros, para fora da praça o tem sempre.

Finalizamos esse dia, última apresentação da circulação, entre os desenhos de Ricardo Woo, nos vendo traçadas em carvão, carvão que havia deixado as mãos de Ricardo tão escuras quanto as nossas, após roçar no chão. Ele nos mostra os desenhos e fala da dificuldade de se capturar um movimento, algo tão rápido.

Fica em nós, após essa circulação, a mesma impressão… Uma dificuldade de captura de tudo que se passou. Uma miríade de sensações condensadas e de intensidade pouco nomeável. Agradecimento a cada chão e cada olhar.

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Fotos: Nina Bamberg

Diálogos: de Sol Bentto, do Coletivo Ambulante, para o Coletivo Cartográfico

Segue, abaixo, um texto de Sol Bentto, integrante do Coletivo Ambulante – http://coletivoambulante.blogspot.com.br/ – sobre a apresentação da performance/espetáculo Instruções para o Colapso, realizada em São Bernardo do Campo, durante a circulação apoiada pelo ProAC Primeiras Obras de Dança 2012, em parceria com o CLAC (Centro Livre de Artes Cênicas):

Em observância… Instruções para o Colapso… do Coletivo Cartográfico…

Dia quente muito quente em São Bernardo do Campo, dia 14. Três mulheres adentraram a praça, corpos lentos, buscando a errância e o desconforto da cidade, corpo frágeis. Numa cidade provinciana como São Bernardo, no centro da cidade, na praça da Matriz algumas pessoas paravam para observá-las, olhares estranhos, curiosos – ali as estrangeiras e seus corpos em potência, em latência, buscando um estado gerativo.

Subiram as escadas da igreja, depois, derreteram-se, uma a uma – água, fluxo. De repente – um grito! Há um lapso descontrolado descontrolando o meu corpo que as observava atentamente.

Então, olhares. Cria-se um jogo. Corpos que se tocam num total frenesi, força, risco, embate e dor. Dói ver! Dói em mim!

Corpos no chão, corpos ao chão, desmembramento. Sou conduzida pelas artistas, a adentrar em mim e, então, não sou mais eu, sou elas, sou os outros observantes, passantes, transeuntes, pipoqueiros, senhoras e senhores, crianças, mãe e o sorvete a derreter no calor insuportável.

Uma nova paisagem se configura no espaço, funde-se com elas, e para elas – presente para nós. Corpos extra-cotidianos, instiga/dores, investiga/dores. E assim, não éramos mais os mesmos, nem elas, nem eu.

Corpos frágeis? Sim! Corpos fortes!

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Sobre Trabalhos: Instruções para o Colapso em São Bernardo

Depois de um curto trajeto de carro, chegamos em São Bernardo do Campo. ABC. Pelo trajeto, mal se percebe que se saiu de São Paulo. Mas estávamos definitivamente outro lugar. Éramos estrangeiras como o fomos em terras mais distantes.

Conseguimos guardar nossos materiais, surpreendentemente, dentro da torre da Igreja Matriz. Em uma paróquia em que nomes santos dominavam. Marias, José e Antônio. O colapso aguardou por debaixo dos sinos…

Diferente do que nos era de costume nas outras cidades que fomos, esse dia não passamos a manhã envolvidas na remontagem do trabalho no novo espaço. Essa discussão precisou se anteceder, pois, nessa manhã, nós demos a Oficina Construir e Demolir o Corpo Cidade para um grupo incrivelmente potente e interessante de artistas – muitos que já desenvolvem uma pesquisa de rua – e estudantes de dança e teatro, em sua maioria alunos do CLAC (Centro Livre de Artes Cênicas).

A oficina se deu na EMAEI (Escola Municipal de Arte Educação Integrada) Paulo Bugni, que antes de escola de artes fora uma pequenina igreja. Suas formas evidenciavam seu passado… e nós, com nossas propostas de demolição, evidenciávamos as mudanças e sobreposições do tempo, também naquele espaço.

Num curto espaço de tempo, condensado, de uma manhã, trafegamos com os participantes da oficina por alguns elementos de pesquisa muito caros para nós – um corpo entre a ruína e o canteiro de obras, o corpo individual e o corpo coletivo (escuta e criação de imagens), o simples risco de estar na rua, o programa para desprogramar…

Os levamos para rua, em deriva, em permissão para os atravessamentos do asfalto. Foi muito bonito poder ver algo de nosso trabalho em reverberação em outros corpos, uma multiplicação – de repente a pesquisa pode migrar de nós três  para rebater em um número bem maior de pessoas, que ocuparam a rua num corpo amplo e comum. Ao final, na conversa, reafirmou-se nossa sensação de uma proliferação de grupos e artistas com a necessidade de saltar para fora dos espaços tradicionais das artes e de pensar e criar novos modos de produção… Ficou o desejo de seguir em diálogo, aprofundando pesquisas e pensamentos em parceria.

Depois de um período curto de preparo, seguimos para a praça central, praça da Igreja Matriz, para dançar o trabalho.

Praça que descobrimos possuir uma história forte para os habitantes de São Bernardo. Uma história de demolições e construções. Uma história de soterramento de histórias. A praça, antes arborizada e com um parque infantil, fora destruída e substituída por uma praça angulosa, de escadarias, corrimãos, concreto e vazios. Segundo nos disseram, ela era antes super utilizada e agora estava abandonada – sua re-construção havia impossibilitado que ela fosse de fato apropriado pelas pessoas. Percebemos, então, que fomos tratar de demolições em um terreno cuja demolição recente tinha a face de uma cicatriz.

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Começamos. Era um dia quente. O chão fervia. O chão era sujo. O chão era áspero. Em nossos primeiros escorrimentos pelo solo, sentimos imediatamente suas marcas no corpo. A praça, aberta e cheia de diferentes alturas, diferentes ladeiras, permitia que as pessoas nos vissem por diferentes ângulos, na maior parte das vezes a distância… amparadas pelas sombras das árvores que só existiam nas margens da praça, nos viam em plano aberto, a tecer demolições pelos canteiros vazios.

Era um público muito diverso. Olhar para as pessoas transitava os sentidos do trabalho numa multiplicidade de difícil captura. Haviam os olhares atentos dos participantes da oficina e de outros artistas que nos foram ver. Haviam olhares apressados de quem havia tirado o sábado para as compras. Haviam olhares temerosos e provincianos. Haviam olhares curiosos. Havia uma mãe que via em nosso ato de nos expor em praça pública um ato de extrema liberdade e parecia repetir isso inúmeras vezes para seu filho. Foi um híbrido de sensações e paisagens constantemente diversas.

Ao final, conversando com algumas pessoas, elas nos contam o quanto é novo um trabalho como esse adentrar o espaço público de São Bernardo. Elas estavam contentes de constatar que, por causa do CLAC, esses trabalhos começam a aparecer e pedir espaço pela cidade. De fato, São Bernardo entrou em nossa rota por um convite direto do CLAC, que buscou o contato de diferentes artistas a partir das listas de aprovados no ProAC. Fica aqui o nosso agradecimento por esse chamado, o desejo de que mais parcerias se concretizem em breve, e a sensação concreta do quanto esse Centro Livre de Artes Cênicas anda a transformar e potencializar sua própria cidade.

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Fotos: Fernando Siviero

Agenda: Oficina Construir e Demolir o Corpo-Cidade em São Bernardo

Esse sábado, dia 14 de setembro, das 9h-12h, as integrantes do Coletivo Cartográfico irão oferecer uma oficina em São Bernardo, na EMAEI (Escola Municipal de Arte Educação Integrada) Paulo Bugni em parceria com o CLAC (Centro Livre de Artes Cênicas).

Sinopse: A oficina irá compartilhar alguns dispositivos de criação explorados pelo Coletivo Cartográfico em sua pesquisa das relações poéticas do corpo com o asfalto, exploradas no processo de criação da performance/espetáculo Instruções para o Colapso. Os integrantes da oficina irão trafegar por alguns desses dispositivos, passando por procedimentos de criação de estados corporais, assim como pela criação de tensões espaciais geradas através de jogos coletivos e alguns programas de encontro do corpo com a cidade.

Vagas: 30

Recomendação Etária: jovens e adultos a partir de 14 anos.

Publico Alvo: Bailarinos, atores, performers, urbanistas e interessados em geral em intervenção corporal urbana.

Roupa dos Participantes: Roupa confortável – de aula de dança – e tênis.

INSCRIÇÕES: Enviar nome e currículo de um parágrafo para o email – coletivocartografico@gmail.com

Observação: Os integrantes da oficina irão receber certificado de participação.

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ATENÇÃO!! No mesmo dia 14, as 15h, o Coletivo Cartográfico irá apresentar a performance/espetáculo Instruções para o Colapso na praça da Igreja Matriz de São Bernardo!

Sobre Trabalhos: Instruções para o Colapso em Santos

Era um domingo ensolarado de um feriado em um parque a beira mar na cidade de Santos. Um parque do qual se têm uma visão panorâmica da cidade de Santos. Um parque com uma escultura de ondas vermelhas da Tomie Ohtake. Um parque com ciclovias e uma pista de skate em homenagem ao Chorão, do Charlie Brown Júnior, ídolo adolescente, que morreu de overdose de cocaína. O parque estava lotado. Em sua maioria, justamente, de adolescentes.

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Começamos, atravessando lentamente o parque comprido quase ponta a ponta, até chegar ao mirante (arquibancada para o mar). Em uma passada calma, um sem número de jovens cruzavam nosso caminho em sua velocidade acelerada sobre rodas. Nosso tempo e o som que de nós ecoava parecia intrigá-los, num misto de curiosidade e medo.

Nossos corpos pouco a pouco desenham colapsos, num jogo entre a ficção e a realidade, os jovens, em multidão, gritam, riem, nos seguem, nos saltam, duetam conosco em manobras de skate, nos imitam, nos fotografam, nos filmam… Ao verem a farinha que derramamos no chão, dizem que “dessa cocaína não querem não”… a a cada vez que mexíamos no som, um skatista de boné pedia para tocarmos Charlie Brown…

Eram muitas pessoas. Era uma multidão. Eles nos seguiam. Eram tantos que por hora não nos víamos. Eles nos cercavam. Eles tomavam para si a posse do trabalho. Achavam que estávamos com o diabo. Achavam que estávamos lutando luta livre. Achavam nossa dança bem louca. O silêncio vinha só as vezes, muito as vezes. Corriam atrás de nós, mas quando nos aproximávamos se afastavam gritando, para depois voltar ainda mais energizados. Eles estavam em frenesi, em polvorosa. Ao final não queriam nos deixar, em seus skates ágeis, eram mais rápidos que a gente e não nos queriam deixar escapar. Explodiram conosco. Explodiram tudo. Ainda é possível ouvir os ecos do estrondo.

Depois de tudo, um segurança se aproxima para perguntar quem era o responsável pelo trabalho… Impressionado com o envolvimento catártico dos adolescentes, ele pergunta se o que fizemos tem algo a ver com o Artaud e o teatro da peste…

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Fotos: Vivi Bezerra