Fotos: Demolições – Casa da Purpurina

As fotos abaixo são registros da pesquisa Estudos Para a Morte realizada na Casa da Purpurina pelo Coletivo Cartográfico, parte do projeto Perturbações Emocionais da Cidade, convidados pelo Núcleo de Garagem.

Série Sala II – Amontoados sobre anotações, agendas, cartas, cadernos, livros, correspondências e outras da mesma espécie…

Monica Lopes, Andrea Mendonça e Carolina Nobrega

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Fotos de Juliana Gennari

Fotos: Demolições – Casa da Purpurina

As fotos abaixo são registros da pesquisa Estudos Para a Morte realizada na Casa da Purpurina pelo Coletivo Cartográfico, parte do projeto Perturbações Emocionais da Cidade, convidados pelo Núcleo de Garagem.

Série Sala – Monica Lopes participação: Andrea Mendonça

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Fotos de Juliana Gennari

Reflexões: Impressões da Casa da Purpurina

Por Andrea Mendonça

CASA DA PURPURINA Nº 382.

O medo de vestir meus galhos e ocupar o espaço das casinhas era real. Ansiedade. Um estado de excitação quase infantil. Os passos apressados e o silêncio eram guiados por uma lanterna minúscula. Quando entrei no ambiente me senti à vontade, como se estivesse retornado a minha casa, onde permaneci durante anos. Incontáveis. Finalmente consegui respirar. Estado de alívio. A repulsa aos animais rastejantes, aos espaços invisíveis e aos cantos escuros haviam desaparecido por alguns instantes.

Apresentava o espaço às pessoas que entravam pela primeira vez, e todos eram muito bem vindos. Ali tínhamos vizinhos. Intimidades. Um sofá rasgado. Casas vazias. E muitas memórias misturadas, de existências desconhecidas, memórias inventadas, as antigas misturadas ás memórias recentes. Memórias eram construídas a cada instante da ocupação. Construídas e destruídas. Construídas e destruídas.

O tempo dilatava-se. Expandido. Fato é que em casa o tempo passa de outra forma, ou melhor, nunca passa. Três horas correspondem a 30 minutos no espaço-tempo-casa-memória. E lá eu poderia permanecer, durante horas infinitas. Paralisada. Percorrendo os espaços entre a minha casa, o corredor e as portas das casas dos vizinhos. Expandindo. Sumindo. Construindo e desconstruindo. Como um corpo-ser forte fragilizado.

O primeiro espaço ocupado foi o corredor. Encostei-me na porta da vizinha de frente, aquela de cachos vermelhos que vivia entre os móveis de miniatura de plástico, e descansava no estrado de uma cama de madeira escura. A porta da minha casa estava aberta, e através dela eu conseguia avistar os espelhos quebrados que estavam pendurados na parede do fundo da sala. Já não me reconhecia. As imagens eram recortadas, desconstruídas e reconstruídas. O corpo enrijecia. Imobilidade. Ali permaneci por algumas durações, e nascia um estado de irritação. Fios presos ao varal me impediam de permanecer ereta. Curvada, os galhos ficavam cada vez mais doloridos e pesados.

Encontrei-me pressa aos fios, o corpo completamente enroscado, torcido. E quanto mais eu tentava me soltava, era pressa, engolida por fios brancos. Os fios da moça que cantava fados e quebrava espelhos com um martelo, ela morava na minha sala. Ao movimentar as extremidades de forma lenta e ágil, consegui me liberar, entrando rapidamente na sala de casa, onde me sentia segura.

 Dentro de casa o olhar rastreava o ambiente, fazendo o reconhecimento o mais rápido possível para sentir-se a vontade. Necessidade. Na sala árvores solitárias com as quais eu me identifico de certa maneira, espelhos partidos, objetos queimados, milhões de pregos, um varal de lã vermelha e preta com frases e desenhos de cantos do espaço pendurados, e inúmeros círculos desenhados a mão com carvão demarcando pequenas demolições. Meu corpo encolhido no canto voltava a respirar, e eu ajeitava os galhos do rosto com as pontas dos dedos. Ali estavam presentes duas outras pessoas, dançando entre os fios, uma rainha sorridente vendada, e uma moça de olhos transparentes gigantes. Elas não podiam me ver.

Desloquei-me agachada até a porta de casa, me dando conta de que a coluna havia tomado uma forma absurdamente curva, como um felino quando vai dar o bote para se defender. Recuei quando percebi algo ou alguém no corredor de cócoras, cavando o barro com as unhas longas e afiadas, uma mistura de pessoa com longos cabelos cobrindo o rosto e um bode. Era feroz e podia atacar a qualquer momento, amedrontava-me. Medo da Carolina. Medo de mim mesma. Medo do que pudesse acontecer. Medo de me movimentar. Medo de um estado interno de quase violência. Agressivo e frágil ao mesmo tempo. Contraditório e irreconhecível, como uma criatura meio minotauro meio centauro.

Ao notarem a minha presença, as pessoas felizes sumiram, afinal de contas, eu era um ser desconhecido. Comecei a bater os cascos nas tábuas de madeira da sala, com o intuito de demarcar território e afastar a mulher-bode, punindo-a, me punindo, como quando ela bateu com força as costelas na parede, emitindo um som agudo e cortante. Estado de repetição. Um som estridente ecoava por todo o espaço. Cacos de espelhos espalhados. Agora sim era o momento do enfrentamento. Agachei-me no barro ao seu lado, e penetrei os galhos da minha cabeça em sua cabeça, com força. Ela não podia enxergar, mas quebrou uma parte dos meus galhos. Senti dor. Alguns fiapos caíram dentro dos meus olhos, quando reconheci que se tratava da pessoa que morava no meu quarto, aquele no qual eu nunca entrava sozinha. Na parede tinha um armário com cordas e terra caía das gavetas. Silhuetas de pregos e velas presas às paredes. Lugar sujo e bagunçado. Afastei-me.  

No corredor, em frente à porta do vizinho que escondia o rosto atrás de um capacete, havia uma mulher sem face, com cabeça de saco de papel marrom, que caminhava incessantemente de um lado para o outro. Voava ao seu redor, próxima a janela azul, a moça de olhos gigantes transparentes. Eu apenas observava como se fosse um ritual, ao mesmo tempo em que procurava controlar possíveis impulsos de movimentos arriscados.

 Na porta de casa, Patrícia, ex-moradora, enforcava-se pendurada na janela, rodeada por inúmeras enforcadas. Talvez filha de Odair, ela tinha apenas 11 anos em 1995, 16 anos atrás, segundo contas, cadernos, diários e outros rastros encontrados por nós, os moradores atuais, nos armários mofados do banheiro. Iniciava-se um fado, cantado pela mulher da minha sala. E então eu fui me aproximando. Parecia que depois das mortes, o ambiente voltava a estabilizar-se. Vizinhos e visitantes em um estado de encantamento observavam a cantoria. Calma. Neblina.

Quase que hipnotizada voltei a entrar na sala de casa, mas possuída imediatamente por uma fúria, quebrava partes dos meus próprios galhos com as mãos, era como que cortar não as unhas, mas as pontinhas dos dedos, rasgando camadas de peles escondidas. Desnudar-se. Pressionei parte no pescoço e ao redor da clavícula esquerda, deixando arranhões. Vidros eram quebrados próximos ao meu rosto pela mulher dos fados, que já não mais cantava. Movimento de rachar o chão com os ossos dos pés. Exausta, me sentei em suas costas, puxando com as mãos seus cabelos, ela havia se transformado em um cavalo manso. Abraçou-me, e meu corpo desfez-se, envolvendo-a carinhosamente numa dança de gestos pequenos e sutis, e o olhar fixo diante das imagens dos poucos espelhos que restaram na parede ao fundo. Reconhecia-me.

Quando inesperadamente, notei parada no batente da porta impedindo a passagem, a criatura bode. Perseguia-me, mas antes que voltasse a atacar, fugi para a cozinha, onde eu realmente morava. Esconderijo. Toca. Na cozinha um balde de ferro, um armário branco com fôrmas de gelos vazias, e pendurado no teto, recordações da minha família. Deite-me ao chão para um longo respiro. Ouvia conversas, cheiros de café fresco e detergente entravam pelas narinas. Estava apegada ao lugar. Apegada aos vizinhos, aqueles que ocupavam o espaço ao meu lado, como àqueles que um dia passaram por lá. Talvez. Tudo seria demolido e eu não conseguia dormir. As saudades e a solidão já estavam presentes. Estado esquisito. Permaneço confusa.

Reflexões: Casa 382 parte II

por Monica Lopes
Hoje era o grande dia, despedida da casa. Um misto de festa e melancolia pairava no ar de maneira simultânea. Havia abertura para extremos e excessos –  um dia de exceção – e assim era mais que necessário ir até o limite do vivido e experimentado até agora.

A moça dos galhos havia perdido todos os seus galhos na noite passada, e os deixou pindurados a enfeitar os varais de linha ainda perdidos entre um espaço e outro. Ela ficou grande parte do dia envolvida com o varal de fotos e com pequenos espelhos que encontrava e trincava, e passeava, e se olhava. Entre fotos e memórias estava ela dançando e espalhando as fotos pelo chão da cozinha. Ficou por horas ali entocada no seu canto preferido da casa. Eu a olhava por entre frestas de pedaços de papéis e figuras de família. A cozinha nunca esteve tão povoada, estavam presente muitas famílias e estas ocupavam pensamentos e histórias no espaço da cozinha.

Neste dia, de certa maneira, todas nós ficamos um pouco entocadas, cada qual no seu ambiente preferido da casa. A moça das silhuetas ficou no quarto em horas intermináveis, acendeu finalmente as velas e ficou dias a olhá-las derreter, havia muita paciência nos seus gestos ao acender uma por uma, e depois voltar a acender quando uma das velas por algum motivo apagava. A cera das velas escorria na parede, como um rio que insiste em se manter vivo. Depois ela morreu.

Eu nesta hora estava na sala a quebrar, trincar, destruir tudo o que havia restado dos espelhos, eu cantava ininterruptamente e me fundia àqueles espelhos trincados, até desaparecer e ver restar apenas uma boca muito vermelha –  me via como uma boca a se mover sozinha e a cantarolar os fados quase que automaticamente. A moça das silhuetas estava a beira da porta e de seus olhos escorriam lágrimas suaves, delicadas, que se opunham ao movimento frenético da quebra dos espelhos.

Eu estava silenciosa. Havia algo de festa lá fora. Saí para lavar-me, necessidade de mudar de estado, mudar de roupa, despir-me. O ato de lavar os meus cabelos me transportava para outra temporalidade. E de repente encontro-me de frente com a matrona, a antiga dona da casa. Ela sorria e me olhava feliz por encontrar espaço para contar suas memórias e histórias das casas para muitos ouvintes. Eu fiquei apenas parada a olhá-la e ela continuava a caminhar com muita intimidade pelo corredor. Entrei em casa eufórica e comecei a dançar, minhas partes trincadas, eu me via em partes através dos espelhos. E dançava ouvindo as histórias, frases ou palavras soltas que conseguia distinguir – as histórias estavam sendo contadas lá fora. Eu repetia as palavras e dançava, como se quisesse que as memórias me penetrassem e ficassem cravadas também dentro de mim.

Depois fui para janela e continuei acompanhando o movimento lá fora no corredor. Eu queria cantar mais uma vez, mas estava quieta, cantarolei de maneira tímida. E aos poucos comecei a ouvir gemidos, era a moça das silhuetas que começava a se mover no quarto, eram delicados seus gestos e um pouco retorcidos. Eu a vi, as velas já haviam se apagado. Corri para a sala novamente e, com a ajuda da moça dos galhos peguei o grande vidro que permanecia recostado na parede desde minha chegada àquela casa. Eu ficara ali, deitei-me em cima do vidro, aquietei-me. Aos poucos comecei a mover meu corpo nesta plataforma frágil e vulnerável e com o peso este foi rachando em partes cada vez menores. Senti-me perecível e sendo demolida por dentro. Tornei-me furacão, rodopiei entre os vidros e espelhos que estavam espalhados pela sala. Tudo se desfazia, se desfocava e eu girava sem fim. A sensação de respiração ofegante, a falta de chão e perda de espacialidade eram reais. Fiquei lá até não suportar mais e cair.

A moradora do quarto havia novamente silenciado. Silêncio. Mas exatamente como um suspiro antes da morte, o silêncio se desfez e deu lugar a um sem fim de marteladas, marretadas e sons de vidraças se quebrando. Era uma primeira demolição efetiva em coletivo. Quase uma histeria coletiva. Havia se criado um movimento de quebrar paredes, havia algo de festa, de alegria, de tristeza, de saudade já. Muitos momentos vividos ali e tudo estaria logo mais demolido.

Reflexões: Casa 382

por Monica Lopes

Havia um tempo expandido, um tempo parado. Havia um abandono, lugar com coisas nos cantos. Havia algo de desconhecido, talvez por ser noite, algo de misterioso. Havia também uma tensão no ar.
Nós que já conhecíamos o lugar, mostramos o espaço, devido a buracos, espaços que estavam para cair, pisos não muito confiáveis para pisar. Nós guiávamos com lanternas e luzes a bateria. Havia novamente um conforto ao ver o espaço ocupado com tantas pessoas conhecidas, mas a tensão continuava.
Resolvi por reconhecer o espaço através de fios, desenhando o espaço e explorando cada detalhe, curva que não havia percebido antes. Com a noite, o espaço se mostrava de maneira diferente. Atravessei os espaços através dos fios e só assim pude reconhecer o corredor como um lugar novamente habitável – lugar antes centro das relações e atividades na comunidade das casinhas.
A minha vontade era de ficar parada, encostada nas paredes. Eu me sentia em outro tempo, havia uma suspensão no ar, uma temporalidade outra.
Ao entrar na casa me via em partes estilhaçadas pelos espelhos, que me figuravam como partes das inumeráveis facetas da minha personalidade. Olhava-me e não me reconhecia e isto era bom. Não me via como um todo uniforme, limpo, claro, unificado e íntegro. Via-me em partes conflitantes querendo se disparar para lugares infinitamente diferentes ao mesmo tempo. E esta era minha sina? Estar sempre dividida em partes heterogêneas que só me atrapalhavam seguir adiante, fluir? Isto me trazia um corpo-conflito, as vezes tortuoso e este se debatia no chão da sala da casa.
Na casa havia outros moradores. Havia uma moça que insistia em colocar galhos na cabeça e que ficava amarrada em meio aos fios do varal das fotos. Esta moça me instigava cada vez mais este corpo-conflito e me trazia impulsos corporais intensos. Ela vivia na cozinha, o lugar mais limpo da casa. Na cozinha ela tinha construído um varal de fotos e memórias. Havia também uma mulher que insistia em procurar incessantemente os buracos da casa e circundá-los marcando-os com carvão. Esta vivia circulando por toda a casa e não parava nunca. Não – minto! – apenas parando na parede em lugar característico em um canto na sala ou quando parava para fazer seus desenhos. A outra moradora vivia no quarto, o cômodo mais sombrio, onde ninguém tinha coragem de entrar, exceto quando ela estivesse dentro do mesmo a habitá-lo. Esta insistia em fazer silhuetas de corpos com pregos, com carvão, com tinta, com velas. Ficava dias inteiros, um dia após o outro, colocando vela por vela, prego por prego. Ela tinha também uma estranha obsessão por terra e ficava horas seguidas a mexer e se envolver na terra que existia no corredor em frente da casa. Eu residia em uma parte da sala, eu e meus inúmeros espelhos trincados. Lá eu ficava muitas horas do dia me olhando ou me quebrando em partes cada vez menores, era uma maneira de me deixar morrer. A outra parte da sala se convencionou um espaço de convivência geral, além de conter o lugar característico, o canto da parede – onde a mulher dos buracos permanecia determinados períodos do dia. Neste mesmo canto da sala a moça das silhuetas deixou os restos dos dois computadores, resultado de um dia de fúria desta moça que os destroçou a marteladas. Este dia foi um dia tenso para todas nós, eu fiquei completamente imóvel, ao ouvir os ruídos da quebra, era como se estivesse sendo quebrada por dentro e a partir deste dia a moça dos galhos criou uma certa fixação de medo pela moça das silhuetas.
A janela em casa era um lugar frequentado por todas, onde se espreguiçavam, se pinduravam, se jogavam, ou apenas se sentavam esperando o dia passar. Eu costumava cantar fados pindurada na janela. Nestas tardes ou noites eu cantarolava e sentia duas vozes me habitando, uma minha, e outra que não reconhecia. Eu gostava de ouvir esta outra voz.
A tensão no espaço era um contínuo. Naquela noite tinhamos convidados e estes passeavam pelo corredor e pelas casas. Eu me instigava com o som das coisas, ruídos, ou com o som do silêncio que teimava em se instaurar e que era doído de se ouvir. Comecei a cantar os fados, como sempre o fazia, e isto transportava imediatamente a tensão que estava fora para dentro de mim. E, por incrível que pareça, o ambiente se tornava mais calmo (do lado de fora de mim, claro!). Surgia um alívio no ar, uma sensação de suspensão do tempo, era um suspiro. Em oposição à minha sensação interna, que instalava rachaduras e emergia algo que me provocava, provocava a ir para o espaço de inúmeras maneiras jamais pensadas anteriormente.
Neste instante os ruídos me atraíam, entrava e saía da casa e ouvia, ouvia tudo. Comecei a saltar e me relacionar com a parede. Acima de mim, havia uma moça com grandes olhos, ela havia pindurado na janela seus olhos por um tempo, e descansava com gestos delicados na janela. Eu olhava o céu agora e via os prédios vizinhos, cheios de luzes, havia um respiro ali. Eu, em cima de uma pedra, respirava e olhava para o céu em pausa. Neste momento, deparei-me com uma mulher com cabeça de saco de papel, ela permanecia imóvel e reconhecia o espaço através de outros olhos. Havia muitas pessoas no corredor. Ao me mover mais um pouco encontrei-me com um homem com cabeça de capacete que se movia através de impulsos e giros e reconheci a moça das siluetas, lá no fundo do corredor, que estava novamente envolvida na terra, com um certo tipo de agitação e com gestualidades repentinas e ininterruptas. Ela havia encontrado uns buracos no corredor, onde continuava bem concentrada e interessada.
Por um impulso, corri novamente para casa, passei pela porta, entrei, a moça dos galhos estava lá obcecada com algo que não sei precisar, não parava de pisar no chão com força, e tinha um olhar enfurecido, determinado – parecia possuída de uma força estranha. Ao me aproximar senti uma necessidade brusca de quebrar os espelhos no chão com a marreta. Havia um alívio e um prazer naquele ato e em ver todos aqueles cacos espelhados pelo chão à minha frente. O som também aliviava algo que não sei explicar, talvez fosse ainda aquela tensão que eu falava desde o início. Eu estive lá, por não sei quanto tempo, na sala, com a moça dos galhos. Havia um conflito, um atrito. Ao ver-me quebrando os espelhos, ela esvaiu-se, derreteu-se, parecia que voltava a si, retornava de um mundo distante. E, voltava com aquele olhar delicado, conhecido e carinhoso. Quando menos esperava, ela começou a puxar meus cabelos, tornei-me bicho. O animal que estava nela transportou-se para mim, tornei-me bicho. Parecia que as coisas estavam mais calmas agora, ouvia murmúrios de conversa lá fora. Segui para fora da casa e encontrei-me com a moradora do quarto. Estava ela lá, na entrada da casa com cabelos no rosto. Aproximei-me, fiz gestos carinhosos e acariciei os seus cabelos. E depois, não sei bem porque comecei a puxar seus cabelos e fazê-la mover através destas puxadas. Ela fugia, eu retornava e fazia carinhos. Parecia-me que o bicho que estava na moça dos galhos – que foi se desfazendo e deixando galhos por todo o varal pindurados – entrou em mim e a inquietação que se figurava nela se estabeleceu dentro de mim.
Era hora de deixar o espaço. Uma coisa era certa: aquele lugar nunca mais seria o mesmo, nem aquelas pessoas que traziam agora consigo traços, rastros do que ficou inscrito naquela noite.

Sobre Trabalhos: estudo para a morte – casa da purpurina

O Coletivo Cartográfico, participou junto com outros artistas e coletivos de diversas áreas artísticas, de uma ocupação/residência numa vila de casas em vias de uma demolição, no bairro da Vila Madalena em São Paulo. Cada artista ocupou uma casa diferente da vila, ou propôs intervenções no corredor, na área comum entre as casas.

As casas eram muito antigas, construídas por portugueses imigrantes, casas de aluguel, como uma das vias de sustento –  à frente da casa, havia uma loja de comércio, que atualmente era um bar popular. A demolição das casas se deu para a construção de um condomínio residencial de alto padrão – sinal do processo acelerado de transformação do bairro e da cidade.

Diante das especificidades do espaço, o Coletivo escolheu investigar as possíveis relações entre espaço interno e espaço externo, compreendendo a casa internamente como um depósito de pessoalidades, em oposição ao espaço externo, onde se priorizam as convenções.

A casa ocupada estava lotada de memórias dos antigos moradores, que foram misturadas às das intérpretes-criadoras, ampliando e ressaltando o caos de sobreposições de memórias que habitam casas de aluguel. Para além disso, cientes da demolição e compreendendo a demolição como morte, final, encerramento de algo para o nascimento de outro algo, investigou-se demolições e mortes no corpo, cada dançarina à sua maneira… vendo de que maneira esses entrecruzamentos de universos singulares conseguiam dialogar numa quase esquizofrenia – que esbarra também nas neuróticas relações familiares de universos pessoais conflitantes.

O Coletivo explorou a criação de instalações espaciais, para ampliar no público a sensação de estar diante de um “interior”, uma casa-id, criando teias de pessoalidades entre as quais as dançarinas teciam suas movimentações. Todas as instalações criadas, ficaram nas paredes mesmo após o final do trabalho, para serem demolidas junto com a casa.

Não houve uma preocupação com um resultado final fechado, as intérpretes abriram a publico suas investigações inconclusas, buscando apostar na força de expor processos efêmeros, criados numa continuidade de fluxo, fluxo esse que foi interrompido com a demolição da vila.