Sobre Trabalhos: Instruções para o Colapso – de volta à Praça da Sé.

por Monica Lopes

Olhando com novos prismas de possibilidades depois da circulação pelas cidades do interior de São Paulo e revisitando materiais que geraram e atravessaram os nossos corpos via procedimentos de pesquisa e criação.  Compartilho impressões do dia que fizemos um  intensivão de procedimentos na Praça da Sé, para reconhecimento do espaço. Estavamos mudando do Anhangabaú para a Sé, e este novo espaço ainda era um grande mistério para nós. Agora de volta para a Praça da Sé nestes proximos dois finais de semana, resolvi por retomar este material de apontamentos e impressões muito vivos, que ainda permanecem e se entrelaçam com as vivências distintas que se fizeram em cada uma das cidade que passamos.

Últimas duas semanas do projeto Instruções para o Colapso!!!  Depois de uma série de colapsos a temporada volta para a Praça da Sé neste final de semana.

Datas da nova temporada: dias 21 (sábado), 22 (domingo), 27 (sexta), 28 (sábado) e 29 (domingo) de Setembro na Praça da Sé! Não percam e divulguem!

Instruções para o Colapso na Praça da Sé

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Primeiro de maio, dia do trabalhador, calor intenso no início da tarde, praça da sé, centro de são paulo

circulavam muitas pessoas por ali, teve uma manifestação logo de manhã e ainda estavam desmontando todo o aparato

fizemos um intensivão de procedimentos um após o outro, sem pausa, no intuito de reconhecer este novo espaço

estavamos estávamos mudando do anhangabau para a praça da sé, meio afoitas,mudanças imprevistas da prefeitura devido a à copa das confederações e preparativos para a copa do mundo

tudo isso depois de tantas experiências e procedimentos vividos no anhangabau

um espaço completamente diferente, era o que estava diante de nós, no que concerne a pessoas era muito mais rico

uma infinidade de pessoas passavam e moravam nesta praça, mundos paralelos convivendo, respeitando, tolerando

por vezes, outras nem tanto

tivemos a oportunidade de presenciar a manifestação de moradores de rua, que acontecetodo ano, devido a uma chacina com 07 mortos – moradores de rua foram assassinados enquanto estavam dormindo

um mundo polifônico, com tempos e vozes completamente dissonantes

no meu corpo reverberaram ainda imagens, ficavam rastros, estes que invadiram um lugar íntimo, penetraram espaços subterrâneos

a repetição e as regras dos procedimentos levavam à a uma constante repetiçãodas trajetórias e, consequentemente, repetição das imagens que eram observadas: as pessoas no seu cotidiano, com micro-mudanças a cada volta que eu dava na praça

a cada repetição era possível observar mais detalhes, ver as pessoas de maneira crua –e, talvez mais nua – envolvidas em suas ações físicas cotidianas, e por vezes sem nem notar a existência deste observador externo

estar diante de uma vida íntima, lugar privado, sensação de não ter sido convidada

um olhar diretamente para o que não é visto, o que fica normalmente invisível as aosolhos no ritmo acelerados acelerado das cidades – as linhas invisíveis sociais que atravessam os lugares e territórios

o baile, o acolhimento depois de uma intensa curiosidade dos moradores de rua

no andar sem parar aleatoriamente, um desautomatizar começou a se fazer e deixava as camadas sobrepostas irem se descascando

as vontades primeiras eram desfeitas, desmanchadas, e abria-se espaço, assim, para o inesperado, o imprevisível

um procedimento após o outro, sem pausa, foram levando-me à a um estado de fruição-fluência-vulnerabilidade

o tempo se dilatou e a aproximação com o espaço e as pessoas se deu devido à a esta série de repetições do trajeto durante a deriva

era como se eu acompanhasse a história de cada uma daquelas pessoas no cairda tarde, a cada micro-mudança dentro da permanência de estar ali

as regras do chapéu e da roupa listrada me levavam sempre para o mesmo percurso

enquanto que a regra da pausa me levava a olhar, sentir a sé, em seus pormenores, vendo as pessoas em um misto de crueza e delicadeza

lembro de um sr. com manchas de sangue na testa, ele cochilava com a cabeça escorrendo para baixo, me lembrei do meu avô neste instante

uma sra. bem velhinha, com blusa vermelha, deitada, ela me olhava com tamanha profundidade cada vez que eu passava

vi outra sra. passando e lembro de alguém conversar com ela e dizer que o asilo estava para fechar, que ela devia se apressar

em outra pausa, lembro de um casal de namorados em um daqueles bancos arredondados de cimento

no baile era bastante divertido, muitas pessoas, muita festa, e um rítmo ritmo acelerado na dança

enquanto que ali na frente da igreja eu sentia um misto de turismo e cotidiano

quando eu deixei cair a fita adesiva no lago fiquei apreensiva e logo em seguida faleisem parar pela segunda vez por 10 min (um dos procedimentos do programa usado neste dia)

a primeira vez eu estava na frente da “casa abandonada”, o lugar estava vazio, só tinha eu e o vento, e uma mochila preta, que alguém esqueceu lá, e que parecia nova, com rodinhas

um homem apareceu e ficou lá sentado em uma das escadas na beirada de uma das portas das “casa abandonada”

eu via ele de longe, eu estava em frente as casas

ele gesticulava sem parar, e falava ao celular de maneira apreensiva ele falava com alguém e dizia: “você precisa parar de chorar! você precisa parar de chorar!!”

e continuava a gesticular e a falar cada vez mais alto

eu seguia falando sem parar gravando no celular e olhando para os detalhes dademolição das casas, as janelas, os vidros, as portas, as paredes, a escadaria

na segunda pausa eu estava bem perto, quase  na “Casa Abandonada”, no cruzamento bem perto do local onde os moradores de rua se concentram, mas um pouco mais perto da calçada e da rua

lá fiquei observando uma mulher de vestido amarelo e com uma blusa vermelha na cabeça

ela gesticulava e deixava as mãos moles, como se mortas, e estas balançavam soltas, enquanto ela se movia

atravessava a rua por vezes sem olhar, não se preocupava muito com os carros, nem com as pessoas, nem mesmo consigo parecia

eu fiquei ali, observando cada gesto daquela mulher, em um misto de estranhamento e curiosidade

pessoas passavam e não a viam ou fingiam não vê-la

ela era invisível

mas eu a via, e ela se movia com os gestos das mãos tapando o sol, ou balançando os braços em movimento cruzado

em certo momento ela se aproximava das pessoas, pedia algo, e continuava a gesticular com as mãos

tentou se comunicar com um casal, este a viu, mas fingiu que não viu e sairam saíram apressados, logo que puderam, quando o farol abriu

eles foram embora, e ela continuou ali neste chacoalhar de gestos e neste ir e vir no cruzamento

dali eu segui para tentativa de solucionar o problema de ter deixado a fita cair no lago

fui até uma banca de jornal e comprei uma fita adesiva e algo que parecia uma bobina de papel, o que encontrei para escrever os comandos e dar nomes aos atratores, como combinado que seria o proximo próximo passo dos procedimentos do dia

comecei, era risível a cena eu tentando ser rápida, mas deixando escorregar pelas mãos o rolo da bobina de papel, ou o canetão

sentava no chão, para melhor me acomodar e fazer o procedimento, e com isso, aos poucos comecei a me sentir em casa

as pessoas me paravam a toda a hora para perguntar o que eu estava fazendo, e as às vezes até para me ajudar, outras queriam seguir os comandos escritos, ou queriam saber o que ia acontecer, ou porque eu estava fazendo aquilo exatamente ali

elas queriam saber se era balé, teatro ou manifestação política

eu conversava com elas ao mesmo tempo que tentava dar conta de escrever os nomes e os comandos e colá-los em algum lugar visível

neste momento eu já havia aceitado a situação estava completamente envolvida com as pessoas e com o lugar

uma sra. com uma criança me perguntou porque tinha tanta gente colando estas coisas?

em uma das trajetórias eu ouvi um homem dizer: “elas estão fazendo exercício, elas fazem isto também lá no anhangabau”

outro perguntou se a gente não cansava nunca

e outro, que estas meninas adoram correr

quando voltei na casa em demolição para colar o comando, estava cheio de gente

todos os moradores de rua, que estavam concentrados mais perto das escadarias seguiram para lá para fumar crack e lá estavam

eu sentei no chão para escrever o comando, e um menino veio me indagar o que eu estava fazendo

assim que respondi, ele perguntou se eu queria ajuda e logo estava ele colando o comando para mim em uma das portas da “casa abandonada”

quando ele conseguiu colar acenei para ele agradecendo e fui me encontrar com as meninas

já era tarde, senti o celular tocando no meu bolso, era a fabi, eu havia perdido completamente a noção do tempo e estava bem emocionada

senti muitas vezes vontade de chorar e naquele momento eu me sentia demolida por dentro de muitas maneiras diferentes e simultâneas

fizemos as trajetórias e comandos de cada uma em coletivo e a transitoriedade dos espaços se deu na mudança das pessoas de lugar

começamos com a carol na “casa abandonada” junto aos moradores de rua, pequenas explosões, parede explodindo, seguimos, suspender com o vento, demolir e erguer muitas vezes com o vento, demolir-se na dança do grande “salão de festas”

observar o orador, dar voltas no guarda-chuva de sapatos

agora era eu, “grande passagem central”, seguir lentamente pelo corredor de pessoas que ficam sempre paradas sentadas olhando a movimentação da sé

explodir diversas vezes na primeira ponte, seguir e derreter-se

deslocando na segunda ponte,

ficar em pausa, olhando o lago, queda d’agua, contar até 30

seguir pelo canteiro do lago pela lateral, descer a escada pequena que leva ao lugar onde se ouve bem o som da água dentro do metrô, subir escada

segue e desce as escadarias correndo, corre até a “casa abandonada”, pausa, demolir-se por dentro, pequenas implosões 

neste momento um moço veio conversar com a gente, perguntou se a gente tinha sido

assaltada, afinal porque estavamos estávamos correndo? pedimos desculpas e falamos o que estavamos estávamos fazendo

ele abriu um imenso sorriso e disse que ficassemos ficássemos a à vontade, pois ali eles eram todos amigos dele e que ninguem ninguém ia mexer com a gente

ficamos um tempo ali em silêncio, com pequenas demolições

seguimos, era a dea agora: “salão de festa”, baile a céu aberto, observar a moça de vestido verde, dar voltas no guarda-chuva dos sapatos, orelhão cair, subir escada da igreja catedral, mover no entre-espaço, se demolindo lentamente até a banca de jornal, desmoronar

caminhar em linha reta em volta da banca de jornal

vai até a outra banca, senta e vê o movimento

agora fabi, senta embaixo de uma árvore, se ancora e sobe se segurando nos galhos

sobe e desce dos muros, sobe saltando e pula, vento do inflar no lugar de estender roupas, andar lentamente e depois se mover inflando no vento, ancorando nos bancos, e correr atras atrás da fabi, sentar e apenas observar.

 

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Reflexões: Inquietude – Experimentações fora do lugar

 “Experimentações fora do lugar!” – Coletivo Cartográfico e Núcleo de Garagem – intervenção  no Parque da Juventude,  uma das ações do  1.o Intercâmbio de Idéias e Ações – deslocamentos e instantâneos –  a convite do Núcleo Cinematográfico de Dança. – 25.05.12

Inquietude 

por Monica Lopes

O Coletivo Cartográfico foi convidado pelo Núcleo Cinematográfico de Dança a participar do 1.o Intercâmbio de Idéias e Ações em uma intervenção com o Núcleo de Garagem no Parque da Juventude, tendo como propositora Carolina Nóbrega – integrante do Coletivo Cartográfico.   A proposta a priori foi instigante e perturbadora, por ser ela complexa e cheia de micro proposições que traziam um choque de informações e de conflitos que iriam desembocar em uma fisicalidade também esta perturbadora .

Fiquei deveras instigada na pesquisa anterior ao dia – sites sobre a ‘Praga da Dança’/ Dancing Plague [http://dsc.discovery.com/news/2008/08/01/dancing-death-mystery.html]   e sobre Tarantismo [http://www.youtube.com/watch?v=q_uz_-YnauM]  – que eram referências para a intervenção. Ficou dentro de mim esta sensação e questionamento: o que fariam estas pessoas dançarem até morrer em 1518? E no dia: o espaço em si –  inquietante! – carregado de memórias marcadas. Estávamos nas ruínas de celas solitárias do Carandiru. Um dia depois de uma intensa chuva –   poças de água por todos os lados! E as pessoas no jogo traziam um inesperado e faziam a ação conter um determinado nível de risco e de instabilidade ainda maior.  A dança como cura e como risco de morte. Tarantismo.

Era difícil se manter todo o tempo nesta mesma fisicalidade, demandava energia e concentração. E com o passar do tempo começamos a ser observados por frequentadores do Parque – em especial um grupo de adolescentes  que nos acompanharam do início até o fim da ação.  Havia também uma atitude de contágio, afetação –  a movimentação era contagiosa e a relação de grupo se fazia como um grupo tentando sobreviver,  mantendo-se próximos uns dos outros.

O que ficou do dia para mim foi uma inquietude. Restou uma perturbação – no corpo e no dentro do corpo. Tudo completamente fora do lugar. Revirada ao avesso. Tinha um pouco de avesso em tudo isso. Avesso de corpo – ações contra a vontade – mas por uma escolha de estar ali naquela experiência. Não tem volta. Um abismo entre o antes e o depois. Não tem volta. Dançar até morrer. Esta inquietude vai permanecer. Sensação de ser atravessada pelo espaço, ficar exposta, nua, crua. Permissão de quebra de si mesmo. Lugar de risco para si e para a sociedade. Dançar até morrer.  Cacos de si mesmo no chão restaram pelo espaço.

E o filme, lindo! Um instantâneo cheio de beleza, que assistimos logo depois da ação. Depois conversamos. Conversa boa, entre grupos e convidados que estavam ali – com pipoca e refrigerante – que trouxe algumas reflexões também instantâneas. Instantâneo não quer dizer superficial e acho que foi isso que provamos dentro desta semana cheia de experiências bastante profundas, entre elas esta do Parque da Juventude.

*Tarantism – Joachim Koester

Reflexões: Demolir-se

por Monica Lopes

O que está escrito aqui são restos de uma demolição de alma, são cortes laterais de uma realidade que me foge continuamente. Esses fragmentos de livro querem dizer que eu trabalho em ruínas. [Clarice Lispector]

O que são estas forças internas que nos movem, com absoluta urgência? Urgência de vida, urgência de morte, urgência de vida-morte-vida.

Uma dança.

Demolir-se, demolir significados, imagens muito bem construídas, valores inconscientes, sonhos mortos. Demolir-se de dentro para fora. Implodir, quebrar-se até que descasque, desmonte, trinque, exploda como consequência também por fora.

E que cada caco se mova por kms, encontre novos territórios e se re-faça enquanto significado.

E lembrei-me deste poema de Florbela Espanca:

RUÍNAS

Se é sempre Outono o rir das primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair…
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruínas crescer heras.
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino de Quimeras!

Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais altos do que as águias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!… Deixa-os tombar… deixa-os tombar…

Reflexões: Impressões da Casa da Purpurina

Por Andrea Mendonça

CASA DA PURPURINA Nº 382.

O medo de vestir meus galhos e ocupar o espaço das casinhas era real. Ansiedade. Um estado de excitação quase infantil. Os passos apressados e o silêncio eram guiados por uma lanterna minúscula. Quando entrei no ambiente me senti à vontade, como se estivesse retornado a minha casa, onde permaneci durante anos. Incontáveis. Finalmente consegui respirar. Estado de alívio. A repulsa aos animais rastejantes, aos espaços invisíveis e aos cantos escuros haviam desaparecido por alguns instantes.

Apresentava o espaço às pessoas que entravam pela primeira vez, e todos eram muito bem vindos. Ali tínhamos vizinhos. Intimidades. Um sofá rasgado. Casas vazias. E muitas memórias misturadas, de existências desconhecidas, memórias inventadas, as antigas misturadas ás memórias recentes. Memórias eram construídas a cada instante da ocupação. Construídas e destruídas. Construídas e destruídas.

O tempo dilatava-se. Expandido. Fato é que em casa o tempo passa de outra forma, ou melhor, nunca passa. Três horas correspondem a 30 minutos no espaço-tempo-casa-memória. E lá eu poderia permanecer, durante horas infinitas. Paralisada. Percorrendo os espaços entre a minha casa, o corredor e as portas das casas dos vizinhos. Expandindo. Sumindo. Construindo e desconstruindo. Como um corpo-ser forte fragilizado.

O primeiro espaço ocupado foi o corredor. Encostei-me na porta da vizinha de frente, aquela de cachos vermelhos que vivia entre os móveis de miniatura de plástico, e descansava no estrado de uma cama de madeira escura. A porta da minha casa estava aberta, e através dela eu conseguia avistar os espelhos quebrados que estavam pendurados na parede do fundo da sala. Já não me reconhecia. As imagens eram recortadas, desconstruídas e reconstruídas. O corpo enrijecia. Imobilidade. Ali permaneci por algumas durações, e nascia um estado de irritação. Fios presos ao varal me impediam de permanecer ereta. Curvada, os galhos ficavam cada vez mais doloridos e pesados.

Encontrei-me pressa aos fios, o corpo completamente enroscado, torcido. E quanto mais eu tentava me soltava, era pressa, engolida por fios brancos. Os fios da moça que cantava fados e quebrava espelhos com um martelo, ela morava na minha sala. Ao movimentar as extremidades de forma lenta e ágil, consegui me liberar, entrando rapidamente na sala de casa, onde me sentia segura.

 Dentro de casa o olhar rastreava o ambiente, fazendo o reconhecimento o mais rápido possível para sentir-se a vontade. Necessidade. Na sala árvores solitárias com as quais eu me identifico de certa maneira, espelhos partidos, objetos queimados, milhões de pregos, um varal de lã vermelha e preta com frases e desenhos de cantos do espaço pendurados, e inúmeros círculos desenhados a mão com carvão demarcando pequenas demolições. Meu corpo encolhido no canto voltava a respirar, e eu ajeitava os galhos do rosto com as pontas dos dedos. Ali estavam presentes duas outras pessoas, dançando entre os fios, uma rainha sorridente vendada, e uma moça de olhos transparentes gigantes. Elas não podiam me ver.

Desloquei-me agachada até a porta de casa, me dando conta de que a coluna havia tomado uma forma absurdamente curva, como um felino quando vai dar o bote para se defender. Recuei quando percebi algo ou alguém no corredor de cócoras, cavando o barro com as unhas longas e afiadas, uma mistura de pessoa com longos cabelos cobrindo o rosto e um bode. Era feroz e podia atacar a qualquer momento, amedrontava-me. Medo da Carolina. Medo de mim mesma. Medo do que pudesse acontecer. Medo de me movimentar. Medo de um estado interno de quase violência. Agressivo e frágil ao mesmo tempo. Contraditório e irreconhecível, como uma criatura meio minotauro meio centauro.

Ao notarem a minha presença, as pessoas felizes sumiram, afinal de contas, eu era um ser desconhecido. Comecei a bater os cascos nas tábuas de madeira da sala, com o intuito de demarcar território e afastar a mulher-bode, punindo-a, me punindo, como quando ela bateu com força as costelas na parede, emitindo um som agudo e cortante. Estado de repetição. Um som estridente ecoava por todo o espaço. Cacos de espelhos espalhados. Agora sim era o momento do enfrentamento. Agachei-me no barro ao seu lado, e penetrei os galhos da minha cabeça em sua cabeça, com força. Ela não podia enxergar, mas quebrou uma parte dos meus galhos. Senti dor. Alguns fiapos caíram dentro dos meus olhos, quando reconheci que se tratava da pessoa que morava no meu quarto, aquele no qual eu nunca entrava sozinha. Na parede tinha um armário com cordas e terra caía das gavetas. Silhuetas de pregos e velas presas às paredes. Lugar sujo e bagunçado. Afastei-me.  

No corredor, em frente à porta do vizinho que escondia o rosto atrás de um capacete, havia uma mulher sem face, com cabeça de saco de papel marrom, que caminhava incessantemente de um lado para o outro. Voava ao seu redor, próxima a janela azul, a moça de olhos gigantes transparentes. Eu apenas observava como se fosse um ritual, ao mesmo tempo em que procurava controlar possíveis impulsos de movimentos arriscados.

 Na porta de casa, Patrícia, ex-moradora, enforcava-se pendurada na janela, rodeada por inúmeras enforcadas. Talvez filha de Odair, ela tinha apenas 11 anos em 1995, 16 anos atrás, segundo contas, cadernos, diários e outros rastros encontrados por nós, os moradores atuais, nos armários mofados do banheiro. Iniciava-se um fado, cantado pela mulher da minha sala. E então eu fui me aproximando. Parecia que depois das mortes, o ambiente voltava a estabilizar-se. Vizinhos e visitantes em um estado de encantamento observavam a cantoria. Calma. Neblina.

Quase que hipnotizada voltei a entrar na sala de casa, mas possuída imediatamente por uma fúria, quebrava partes dos meus próprios galhos com as mãos, era como que cortar não as unhas, mas as pontinhas dos dedos, rasgando camadas de peles escondidas. Desnudar-se. Pressionei parte no pescoço e ao redor da clavícula esquerda, deixando arranhões. Vidros eram quebrados próximos ao meu rosto pela mulher dos fados, que já não mais cantava. Movimento de rachar o chão com os ossos dos pés. Exausta, me sentei em suas costas, puxando com as mãos seus cabelos, ela havia se transformado em um cavalo manso. Abraçou-me, e meu corpo desfez-se, envolvendo-a carinhosamente numa dança de gestos pequenos e sutis, e o olhar fixo diante das imagens dos poucos espelhos que restaram na parede ao fundo. Reconhecia-me.

Quando inesperadamente, notei parada no batente da porta impedindo a passagem, a criatura bode. Perseguia-me, mas antes que voltasse a atacar, fugi para a cozinha, onde eu realmente morava. Esconderijo. Toca. Na cozinha um balde de ferro, um armário branco com fôrmas de gelos vazias, e pendurado no teto, recordações da minha família. Deite-me ao chão para um longo respiro. Ouvia conversas, cheiros de café fresco e detergente entravam pelas narinas. Estava apegada ao lugar. Apegada aos vizinhos, aqueles que ocupavam o espaço ao meu lado, como àqueles que um dia passaram por lá. Talvez. Tudo seria demolido e eu não conseguia dormir. As saudades e a solidão já estavam presentes. Estado esquisito. Permaneço confusa.

Reflexões: Casa 382 parte II

por Monica Lopes
Hoje era o grande dia, despedida da casa. Um misto de festa e melancolia pairava no ar de maneira simultânea. Havia abertura para extremos e excessos –  um dia de exceção – e assim era mais que necessário ir até o limite do vivido e experimentado até agora.

A moça dos galhos havia perdido todos os seus galhos na noite passada, e os deixou pindurados a enfeitar os varais de linha ainda perdidos entre um espaço e outro. Ela ficou grande parte do dia envolvida com o varal de fotos e com pequenos espelhos que encontrava e trincava, e passeava, e se olhava. Entre fotos e memórias estava ela dançando e espalhando as fotos pelo chão da cozinha. Ficou por horas ali entocada no seu canto preferido da casa. Eu a olhava por entre frestas de pedaços de papéis e figuras de família. A cozinha nunca esteve tão povoada, estavam presente muitas famílias e estas ocupavam pensamentos e histórias no espaço da cozinha.

Neste dia, de certa maneira, todas nós ficamos um pouco entocadas, cada qual no seu ambiente preferido da casa. A moça das silhuetas ficou no quarto em horas intermináveis, acendeu finalmente as velas e ficou dias a olhá-las derreter, havia muita paciência nos seus gestos ao acender uma por uma, e depois voltar a acender quando uma das velas por algum motivo apagava. A cera das velas escorria na parede, como um rio que insiste em se manter vivo. Depois ela morreu.

Eu nesta hora estava na sala a quebrar, trincar, destruir tudo o que havia restado dos espelhos, eu cantava ininterruptamente e me fundia àqueles espelhos trincados, até desaparecer e ver restar apenas uma boca muito vermelha –  me via como uma boca a se mover sozinha e a cantarolar os fados quase que automaticamente. A moça das silhuetas estava a beira da porta e de seus olhos escorriam lágrimas suaves, delicadas, que se opunham ao movimento frenético da quebra dos espelhos.

Eu estava silenciosa. Havia algo de festa lá fora. Saí para lavar-me, necessidade de mudar de estado, mudar de roupa, despir-me. O ato de lavar os meus cabelos me transportava para outra temporalidade. E de repente encontro-me de frente com a matrona, a antiga dona da casa. Ela sorria e me olhava feliz por encontrar espaço para contar suas memórias e histórias das casas para muitos ouvintes. Eu fiquei apenas parada a olhá-la e ela continuava a caminhar com muita intimidade pelo corredor. Entrei em casa eufórica e comecei a dançar, minhas partes trincadas, eu me via em partes através dos espelhos. E dançava ouvindo as histórias, frases ou palavras soltas que conseguia distinguir – as histórias estavam sendo contadas lá fora. Eu repetia as palavras e dançava, como se quisesse que as memórias me penetrassem e ficassem cravadas também dentro de mim.

Depois fui para janela e continuei acompanhando o movimento lá fora no corredor. Eu queria cantar mais uma vez, mas estava quieta, cantarolei de maneira tímida. E aos poucos comecei a ouvir gemidos, era a moça das silhuetas que começava a se mover no quarto, eram delicados seus gestos e um pouco retorcidos. Eu a vi, as velas já haviam se apagado. Corri para a sala novamente e, com a ajuda da moça dos galhos peguei o grande vidro que permanecia recostado na parede desde minha chegada àquela casa. Eu ficara ali, deitei-me em cima do vidro, aquietei-me. Aos poucos comecei a mover meu corpo nesta plataforma frágil e vulnerável e com o peso este foi rachando em partes cada vez menores. Senti-me perecível e sendo demolida por dentro. Tornei-me furacão, rodopiei entre os vidros e espelhos que estavam espalhados pela sala. Tudo se desfazia, se desfocava e eu girava sem fim. A sensação de respiração ofegante, a falta de chão e perda de espacialidade eram reais. Fiquei lá até não suportar mais e cair.

A moradora do quarto havia novamente silenciado. Silêncio. Mas exatamente como um suspiro antes da morte, o silêncio se desfez e deu lugar a um sem fim de marteladas, marretadas e sons de vidraças se quebrando. Era uma primeira demolição efetiva em coletivo. Quase uma histeria coletiva. Havia se criado um movimento de quebrar paredes, havia algo de festa, de alegria, de tristeza, de saudade já. Muitos momentos vividos ali e tudo estaria logo mais demolido.

Reflexões: Casa 382

por Monica Lopes

Havia um tempo expandido, um tempo parado. Havia um abandono, lugar com coisas nos cantos. Havia algo de desconhecido, talvez por ser noite, algo de misterioso. Havia também uma tensão no ar.
Nós que já conhecíamos o lugar, mostramos o espaço, devido a buracos, espaços que estavam para cair, pisos não muito confiáveis para pisar. Nós guiávamos com lanternas e luzes a bateria. Havia novamente um conforto ao ver o espaço ocupado com tantas pessoas conhecidas, mas a tensão continuava.
Resolvi por reconhecer o espaço através de fios, desenhando o espaço e explorando cada detalhe, curva que não havia percebido antes. Com a noite, o espaço se mostrava de maneira diferente. Atravessei os espaços através dos fios e só assim pude reconhecer o corredor como um lugar novamente habitável – lugar antes centro das relações e atividades na comunidade das casinhas.
A minha vontade era de ficar parada, encostada nas paredes. Eu me sentia em outro tempo, havia uma suspensão no ar, uma temporalidade outra.
Ao entrar na casa me via em partes estilhaçadas pelos espelhos, que me figuravam como partes das inumeráveis facetas da minha personalidade. Olhava-me e não me reconhecia e isto era bom. Não me via como um todo uniforme, limpo, claro, unificado e íntegro. Via-me em partes conflitantes querendo se disparar para lugares infinitamente diferentes ao mesmo tempo. E esta era minha sina? Estar sempre dividida em partes heterogêneas que só me atrapalhavam seguir adiante, fluir? Isto me trazia um corpo-conflito, as vezes tortuoso e este se debatia no chão da sala da casa.
Na casa havia outros moradores. Havia uma moça que insistia em colocar galhos na cabeça e que ficava amarrada em meio aos fios do varal das fotos. Esta moça me instigava cada vez mais este corpo-conflito e me trazia impulsos corporais intensos. Ela vivia na cozinha, o lugar mais limpo da casa. Na cozinha ela tinha construído um varal de fotos e memórias. Havia também uma mulher que insistia em procurar incessantemente os buracos da casa e circundá-los marcando-os com carvão. Esta vivia circulando por toda a casa e não parava nunca. Não – minto! – apenas parando na parede em lugar característico em um canto na sala ou quando parava para fazer seus desenhos. A outra moradora vivia no quarto, o cômodo mais sombrio, onde ninguém tinha coragem de entrar, exceto quando ela estivesse dentro do mesmo a habitá-lo. Esta insistia em fazer silhuetas de corpos com pregos, com carvão, com tinta, com velas. Ficava dias inteiros, um dia após o outro, colocando vela por vela, prego por prego. Ela tinha também uma estranha obsessão por terra e ficava horas seguidas a mexer e se envolver na terra que existia no corredor em frente da casa. Eu residia em uma parte da sala, eu e meus inúmeros espelhos trincados. Lá eu ficava muitas horas do dia me olhando ou me quebrando em partes cada vez menores, era uma maneira de me deixar morrer. A outra parte da sala se convencionou um espaço de convivência geral, além de conter o lugar característico, o canto da parede – onde a mulher dos buracos permanecia determinados períodos do dia. Neste mesmo canto da sala a moça das silhuetas deixou os restos dos dois computadores, resultado de um dia de fúria desta moça que os destroçou a marteladas. Este dia foi um dia tenso para todas nós, eu fiquei completamente imóvel, ao ouvir os ruídos da quebra, era como se estivesse sendo quebrada por dentro e a partir deste dia a moça dos galhos criou uma certa fixação de medo pela moça das silhuetas.
A janela em casa era um lugar frequentado por todas, onde se espreguiçavam, se pinduravam, se jogavam, ou apenas se sentavam esperando o dia passar. Eu costumava cantar fados pindurada na janela. Nestas tardes ou noites eu cantarolava e sentia duas vozes me habitando, uma minha, e outra que não reconhecia. Eu gostava de ouvir esta outra voz.
A tensão no espaço era um contínuo. Naquela noite tinhamos convidados e estes passeavam pelo corredor e pelas casas. Eu me instigava com o som das coisas, ruídos, ou com o som do silêncio que teimava em se instaurar e que era doído de se ouvir. Comecei a cantar os fados, como sempre o fazia, e isto transportava imediatamente a tensão que estava fora para dentro de mim. E, por incrível que pareça, o ambiente se tornava mais calmo (do lado de fora de mim, claro!). Surgia um alívio no ar, uma sensação de suspensão do tempo, era um suspiro. Em oposição à minha sensação interna, que instalava rachaduras e emergia algo que me provocava, provocava a ir para o espaço de inúmeras maneiras jamais pensadas anteriormente.
Neste instante os ruídos me atraíam, entrava e saía da casa e ouvia, ouvia tudo. Comecei a saltar e me relacionar com a parede. Acima de mim, havia uma moça com grandes olhos, ela havia pindurado na janela seus olhos por um tempo, e descansava com gestos delicados na janela. Eu olhava o céu agora e via os prédios vizinhos, cheios de luzes, havia um respiro ali. Eu, em cima de uma pedra, respirava e olhava para o céu em pausa. Neste momento, deparei-me com uma mulher com cabeça de saco de papel, ela permanecia imóvel e reconhecia o espaço através de outros olhos. Havia muitas pessoas no corredor. Ao me mover mais um pouco encontrei-me com um homem com cabeça de capacete que se movia através de impulsos e giros e reconheci a moça das siluetas, lá no fundo do corredor, que estava novamente envolvida na terra, com um certo tipo de agitação e com gestualidades repentinas e ininterruptas. Ela havia encontrado uns buracos no corredor, onde continuava bem concentrada e interessada.
Por um impulso, corri novamente para casa, passei pela porta, entrei, a moça dos galhos estava lá obcecada com algo que não sei precisar, não parava de pisar no chão com força, e tinha um olhar enfurecido, determinado – parecia possuída de uma força estranha. Ao me aproximar senti uma necessidade brusca de quebrar os espelhos no chão com a marreta. Havia um alívio e um prazer naquele ato e em ver todos aqueles cacos espelhados pelo chão à minha frente. O som também aliviava algo que não sei explicar, talvez fosse ainda aquela tensão que eu falava desde o início. Eu estive lá, por não sei quanto tempo, na sala, com a moça dos galhos. Havia um conflito, um atrito. Ao ver-me quebrando os espelhos, ela esvaiu-se, derreteu-se, parecia que voltava a si, retornava de um mundo distante. E, voltava com aquele olhar delicado, conhecido e carinhoso. Quando menos esperava, ela começou a puxar meus cabelos, tornei-me bicho. O animal que estava nela transportou-se para mim, tornei-me bicho. Parecia que as coisas estavam mais calmas agora, ouvia murmúrios de conversa lá fora. Segui para fora da casa e encontrei-me com a moradora do quarto. Estava ela lá, na entrada da casa com cabelos no rosto. Aproximei-me, fiz gestos carinhosos e acariciei os seus cabelos. E depois, não sei bem porque comecei a puxar seus cabelos e fazê-la mover através destas puxadas. Ela fugia, eu retornava e fazia carinhos. Parecia-me que o bicho que estava na moça dos galhos – que foi se desfazendo e deixando galhos por todo o varal pindurados – entrou em mim e a inquietação que se figurava nela se estabeleceu dentro de mim.
Era hora de deixar o espaço. Uma coisa era certa: aquele lugar nunca mais seria o mesmo, nem aquelas pessoas que traziam agora consigo traços, rastros do que ficou inscrito naquela noite.